sexta-feira, 5 de março de 2010

O crime compensa

Um dos aspectos mais tenebrosos da carcinogénese capitalista (a besta) reside na banalização do crime e na indiferença generalizada face ao espectáculo fluido e dromologicamente violento em que se traduz o roubo constante, planeado, sistemático, dessa massa imensa, global, de ínfimas fracções de riqueza e de direitos sociais a que todos os cidadãos, trabalhadores, contribuintes deveriam ter direito. A besta tem horror à dignidade humana, à justiça, à equanimidade, à partilha e à gratuidade - a não ser quando esses princípios servem para dissimular a sua própria malignidade, o que se tornou tão vulgar como a indústria da "ajuda aos pobrezinhos". Há, no entanto, um imenso círculo - ou rede - de unanimidade em torno da constatação de que o crime compensa. Admitimos facilmente que isso é errado, mas o espectáculo não pára: quando fecha a Bolsa de Tóquio, abre a de Frankfurt, e quando esta fecha abre a de Nova Iorque, alimentando os fluxos de um quotidiano globalizado e embasbacado perante a narrativa mítica do "crescimento" que, repetida até à exaustão, nos mantem a todos entretidos em meros jogos de linguagem e efeitos de caixa registadora legitimadores do roubo constante que não conseguimos evitar.

Escreveu Zygmunt Bauman que «é graças à válvula de segurança da "economia moral" que as tensões geradas pela economia de mercado não chegam a assumir proporções explosivas. É graças ao amortecedor da "economia moral" que os dejectos humanos gerados pela economia de mercado não chegam a ser incontroláveis. Não fosse pela intervenção correctiva, lenitiva, suavizante e compensadora da economia moral, a economia de mercado exporia o seu impulso auto-destrutivo. O milagre diário da salvação/ressurreição da economia de mercado deriva do seu fracasso em seguir esse impulso até ao fim»

2 comentários:

  1. Caro Francisco Oneto:

    Concordo plenamente com a sua visão. O crime compensa, claramente. Aliás, gostava de, com a sua permissão, publicá-lo amanhã no caderno d' A Conjura dos Néscios

    http://aconjuradosnescios.blogspot.com/

    Saúde.

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  2. Na verdade, o crime não compensa, como felizmente admite a consciência moral da generalidade das pessoas de bem e de quem leu contos de fadas.

    Mas para muitos criminosos - tanto para os patológicos como para os demais - compensa (ainda que seja pura ilusão. Narada não chega a afogar-se).

    Mas de nenhuma dessas compensações precisamos.

    Militia, malicia (vide J. Mattoso, G. Duby, G. Dumézil).

    Como equacionar ahimsa (inofensividade) e satyagraha (ser-se verdadeiro) com a herança de Maquiavel, Hobbes, Bentham, Malthus, os neoclássicos, os Chicago boys...?

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