segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

"Está bem... façamos de conta", de Mário Crespo, in JN, 9/2/09

Mário Crespo é um grande senhor do jornalismo, penso que isso não oferece dúvidas a ninguém.

E, concorde-se ou não com algumas das dúvidas e associações que levanta no artigo "Está bem... façamos de conta" (e eu discordo de algumas), publicado no Jornal de Notícias de 9/2/09, a verdade é que levanta várias questões pertinentes sobre a qualidade da nossa democracia e a credibilidade dos agentes políticos.

Por tudo isso, penso que é pertinente divulgá-lo junto dos leitores dos "Ladrões de Bicicletas":

"Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média.

Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo.

Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso.

Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos."

Mário Crespo, in Jornal de Notícias, 2009-02-09

12 comentários:

  1. http://frenchkissin.blogspot.com/2009/02/blog-post_10.html

    "O já famoso artigo de Mário Crespo, sendo de opinião, vale sobretudo por ser um espelho fiel do jornalismo português actual: um somatório de presunções, de diz-que-disse, de publicar antes de confirmar, de transformar a voz da rua em ciência exacta, de misturar simples piadas com coisas sérias, de insinuar tudo e nada provar, de tentar provar o improvável pela quantidade não pela qualidade, do império do engraçadismo, da dispensabilidade do bom senso, da deontologia apenas nos dias pares, do ajuste de contas permanente não importa com quem, da irresponsabilidade."

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  2. Podemos dizer que Mário Crespo é Mário Crespo, que Mário Crespo foi, em tempos idos, despedido de um qualquer lugar por um qualquer militante do PS e que isto o afectou, podemos dizer qualquer outra coisa, só não podemos dizer é que Mário Crespo não tem razão.

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  3. Mário Crespo foi feliz ao conseguir agregar num único texto um sem fim de questões que, por variadíssimas razões, não foram ainda devidamente esclarecidas para o comum dos mortais, seja pela sua natureza, complexidade ou mesmo porque simplesmente não tem resposta porque partem de falsas premissas. Contudo, há uma delas que me desperta especial interesse, a pretensa conversa telefónica do ministro (cargo referido minusculamente pelo autor) da Presidência Pedro Silva Pereira. Ora vejamos, assumindo que os factos são fiáveis, vou ser atrevidote e pedir emprestado o estilo de Mário Crespo para dizer o seguinte:
    Façamos de conta que Silva Pereira foi sempre um entrevistado fácil e complacente com Mário Crespo e que a entrevista sobre o Freeport lhe correu de feição. Façamos de conta que o teor das conversas no âmbito do exercício do jornalismo não são tendencialmente confidenciais e que não é normal que um Ministro queira ser tratado sem confianças pessoais. Façamos de conta que Mário Crespo divulgou o teor do telefonema com Ministro logo no inicio da entrevista, enfim, façamos de conta que Mário Crespo acredita em tudo aquilo que escreve nesta peça e façamos de conta de que ele não desejaria que todas as "suspeitas" que pairam sobre este Governo fossem confirmadas, de preferência num qualquer canal da concorrência pelas 9:00PM.

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  4. Acho que não precisamos de fazer de conta para concluir que Mário Crespo não é um bom jornalista!
    Diria mais, que nem sequer é jornalista!
    Esta tirada pôs-me crespo!

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  5. Mário Crespo pode cometer erros, como qualquer um de nós, mas é de longe o jornalista mais sereno e inteligente da nossa televisão, que não está sempre a interromper nem a enervar ninguém. Só por isso já merecia o óscar.
    Clara

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  6. Gostei do texto mas como sabia que vinha da "excelência de conteúdos" que é o Mário Crespo- uma pessoa que não acredita em direitos civis iguais para cidadãos votantes e pagantes de impostos - o que podia ser uma belíssima denúncia soa a diatribe hipócrita.

    Como é alguém sem ponta de introspecção o "nojo" deste senhor com o estado da democracia em Portugal só pode ser anedota.

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  7. Se fizermos de conta que «Mário Crespo é um grande senhor do jornalismo» e se tb fizermos de conta de que «que isso não oferece dúvidas a ninguém»...

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  8. Como alguns comentadores já mostraram o exercício do "se fizermos de conta..." pode fazer-se a respeito de qualuqer personalidade...é só fazer uma listagem de pressupostos que gostaríamos que foseem verdadeiros

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  9. Vamos então continuar a fazer de conta



    Façamos de conta que Mário Crespo tinha a importância de um Primeiro Ministro. E façamos de conta que tinha no seu passado uma qualquer obra realizada ao serviço do estado. Vamos fazer de conta que alguém lhe tinha visto competência e capacidade para o investir em tais funções. Façamos de conta que ignoramos que qualquer decisão por ele tomada teria pelo menos dez alternativas possíveis. Façamos de conta que o sectarismo de Mário Crespo tinha paralelo no de JAS que por não gostar de esquerdelhos faz constar que as decisões de Crespo, por terem sido levadas à prática, fazem pensar que alguém pagou luvas. Façamos de conta que Crespo tem ainda respeito por si próprio e vem declarar publicamente que deseja que se apure a verdade com a maior brevidade para que mantenha direito ao seu bom nome. Façamos de conta que JAS mantém as insinuações e suspeitas até porque se lembra muito bem que Crespo ou outro por ele, tirou o curso à custa de algumas passagens administrativas muito em voga no pós 25 de Abril. Façamos ainda de conta que JAS contactou um amigo de infância de Crespo que lhe assegurou que Crespo foi em tempos um miúdo mal educado que às vezes até dizia “merda”. Façamos então de conta que entendemos que o nosso jornalismo devia ser feito por pessoas intelectualmente isentas, impolutas e bem educadas. Façamos de conta que a fazer fé nas informações do JAS não podemos ter Mário Crespo em tal conta. E estando a democracia na forte dependência do jornalismo que se faz, façamos de conta que pomos todo o nosso sistema democrático em causa. E façamos de conta que decidimos então deixar de votar e abrir portas aos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Teremos então o Mário Crespo e o JAS com aquilo que merecem, mas todo um povo de novo amordaçado e privado da liberdade eles destruíram com o seu sectarismo, rancor pessoal e oportunista descuido das regras e ideais democráticos.

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  10. Nem uma referência ao P.N.R. na secção dos partidos e associações politicas? Não conhecem decerto... A renovação comunista, já conhecem... O comunismo que é o regime mais homicida da história da humanidade, e continua a fazer vitimas... o que eu me rio com a "nossa democracia"...

    Quando se referem aos "nossos" partidos e associações políticas referem-se aos vossos, porque meus não são de certeza, nem de boa parte dos dez milhões de portugueses, os novos pobres, a factura desta "democracia".

    São os vossos, de quem é responsável pelo completo assassinato de Portugal nos últimos trinta anos, a todos os níveis. Parabéns, continuem. No fundo gostam de chamar a tudo isso política não é?

    São os vossos partidos, porque de Portugal não são de certeza, visto este estar em último na lista de prioridades dos partidos. A palavra de ordem é encher os bolsos, não importa como.

    D. Afonso Henriques deve estar ás voltas no túmulo.

    "Fracos Reis que fazem da forte fraca gente!"

    Viva Portugal! Viva a direita, a verdadeira direita, a direita nacionalista!

    Ps: Espero que não censurem este comentário, democratas!

    Tomás

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  11. Aprecio os escritos de André Freire, nem sempre concordando, mas fico incrédulo (e desapontado) quando ele diz que "Mário Crespo é um grande senhor do jornalismo". Recordo, entre muitas outras possibilidades, o artigo que MC escreveu no Jornal de Notícias, 21 de Julho de 2008, intitulado "Limpeza Etnica"...

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  12. Começo por confessar que não tenho nem o Sr. Freire nem o Sr. Crespo em grande conta para coisa nenhuma.

    Na verdade, e nomeadamente no caso deste último, acho-o mesmo absolutamente deslocado da realidade, operando entrevistas e conduzinho edições noticiosas de forma um tanto «gagá», isto é, tontinha, taralhoca, apalhaçada, mas tudo vestido de grande rigor e seriedade e supostamente alicerçado numa longa e imaculada carreira de jornalista. Isto mesmo que em tantos anos não se lhe conheça uma investigação séria, uma reportagem que pusesse o dedo na ferida, zero, nickles... niente.

    O Sr. Freire aprecia o Sr. Crespo e está tudo dito quanto ao caso. O resto é para entreter quem quiser ser entretido com tão parco entretenimento.

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