sábado, 31 de outubro de 2026

Liberais, desmandos e truques


Algumas das figuras mais extremistas da ‘nossa’ direita libero-facha têm andado nestes últimos dias particularmente ativas na sua eterna missão, nunca inteiramente realizada, de espalhar desinformação, a propósito de um ‘faz anos que não sei quê’, outra vez a eternamente martelada vigarice histórica ‘o gatuno do Sócrates’. Aprendi com André Janones, não há link para elas. 

Isto acontece - será por acaso? - enquanto a imprensa dá nota de uma quadrilha de corruptos, que se encontram entre os piores que alguma vez flagelaram o país na sua longa História, ter escapado à justiça, visivelmente de classe. Todos os cabecilhas, sem exceção, liberais. 

Não nos esqueçamos nunca que esta quadrilha, nata da nata do cavaquismo, assaltou à vista desarmada o Banco Português de Negócios, o BPN. 

Cavaco Silva, por exemplo, primeiro-ministro à data de fundação da instituição financeira, vendeu, em 2003, ações que detinha do banco ao próprio banco, num negócio com obscenas mais-valias e realizado sem o escrutínio de mercado que o regime regulatório vigente impõe; uma negociata, afinal, entre amigos, antigos ministros seus e Joaquim Coimbra, um dos donos políticos do PSD de antanho. 

E isto, como se sabe, foi só uma muito pequena amostra do desmando ganancioso, corrupto e incompetente, cuja fatura ainda não encerrou e que custou ao país, em termos financeiros, um número difícil de averiguar com exatidão, mas que já superou os 6 mil milhões de euros. Deste rombo nas finanças públicas, deste aumento na dívida pública, nunca se queixam os liberais, claro. 

Lá está :‘culpa de Sócrates’. Sendo um truque de versatilidade assinalável que só beneficia as teses liberais e proscreve as alternativas, quase coincidentemente no tempo, também Centeno tinha há pouco vindo a público alimentar a patranha. 

Neste caso, o truque consiste, enquanto nos prende a atenção com o não existente despesismo de Sócrates e Montenegro, em evitar que se façam três perguntas. 

Primeiro, não se presta atenção ao estrago histórico que ele, Centeno, impôs ao investimento público, aos hospitais, às escolas, à habitação, aos transportes. Em todos os anos de Centeno como Ronaldo das finanças, foi sempre negativo o investimento subtraído do seu desgaste. Isto configura uma boa política orçamental? 

Segundo, também não se questionam as perdas de 2,5 mil milhões de euros incorridas no Banco de Portugal no período em que a instituição era por si governada. Aqueles que destas perdas beneficiaram incensam-no, claro. 

Terceiro, igualmente tenderá a ficar sem escrutínio suficiente o seu lugar na folha de pagamentos de um banco estrangeiro privado, quando ainda estão quentes as suas cadeiras no Ministério das Finanças e no Banco (que não é) de Portugal, posições que o colocaram na posse de informação crítica para o Estado português. “[N]omeado conselheiro independente do Abanca Vida e Pensões”, dizem eles quase com graça. 

Enfim, liberais e as suas tristes proezas. Não tem de ser assim.

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