terça-feira, 17 de março de 2026

Menos Habermas, mais Streeck


Habermas, que descanse em paz. Deve ser elogiado pelos seus primeiros trabalhos críticos, de inspiração marxista, sobre a esfera pública e pelo seu firme antifascismo. Mas a sua viragem para o patriotismo constitucional, a recusa da luta de classes e a sua adesão fatalista ao liberalismo lançam certamente uma sombra sobre o seu legado. Na verdade, foi o seu apoio ao genocídio israelita em Gaza que se revelou trágico e tornou a sua obra tardia irrelevante e autodestrutiva enquanto filosofia política liberal coerente. 

Nem mais, nem menos, Daniel Tutt. Li o suficiente de Jürgen Habermas, um par de livros, um quando ele era quasi-marxista e se preocupava com crise de legitimidade, nos anos 1970, e outro quando já era federalista liberal e defendia a famigerada Constituição para a UE, bem como um par de artigos (sim, literalmente dois de cada, se a memória não me falha). 

Francamente, não tive vontade de ler mais, sendo de resto daqueles pensadores tantas vezes referidos que uma pessoa até se ilude em relação ao conhecimento que dele tem (ficaram-me na memória as críticas assertivas do historiador Perry Anderson às suas derivas, por exemplo). Nunca o usei em qualquer trabalho.

Tomando apenas em conta o pouco que conheço, entre o seu federalismo liberal e o soberanismo socialista de um Wolfgang Streeck, num debate alemão que continua relevante para o resto da UE, a escolha é clara: menos, muito menos, Habermas, mais, muito mais, Streeck. 

E a disputa não é sobre a Europa, mas sim sobre a UE, a sua natureza e trajetória. Um foge à economia política, o outro mobiliza-a, a de Marx, Keynes e Polanyi. A UE não é a Europa, mas a esquerda italiana, com honrosas exceções, comete este erro tão revelador que chego a pensar que é mais definidor do que qualquer outro nesta área. A esquerda italiana é uma ruína romana já com décadas, lembrai-vos.

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