sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sim, sois um bando de intelectuais


Face às excitadas e engraçadinhas reações, eventualmente reveladoras de preferências desinformadas, por parte de intelectuais da direita pura e dura que sintomaticamente apoiam Seguro, venho por este meio informar que o uso da palavra intelectual não contém, por si só, qualquer elogio ou crítica. 

Como sublinhou o leninista Antonio Gramsci, todos os indivíduos são intelectuais, na medida em que são compelidos a pensar, mas, na divisão social de trabalho existente, nem todos fazem, predominantemente, do intelecto modo de vida. A palavra predominantemente é crucial aqui, note-se. 

E para lá dos intelectuais tradicionais, temos os chamados intelectuais orgânicos. São-no os que organizadamente se inserem na vida socioeconómica e no combate político ao serviço de uma classe ou fração de classe. 

Dominando direta ou indiretamente cada vez mais meios de produção intelectual, as burguesias dispõem hoje de um enxame relativamente bem pago na academia, na comunicação social, nos grandes escritórios de advogados e noutras grandes empresas, nos partidos, da extrema-direita ao extremo-centro, nas plataformas, nos stink-tanks, nas fundações, no aparelho de Estado, nas organizações internacionais, etc. 

Hegemonia, já agora, é, em Gramsci, a multifacetada liderança de classe, a que idealmente articula coerção minimizada e dirigida e consenso maximizado e difuso, garantindo uma certa congruência entre as sempre interligadas relações sociais de produção e superestruturas político-ideológicas. 

A hegemonia neoliberal, tão bem denunciada nas suas declinações nacionais por um esperançoso António Filipe, está a desfazer-se à escala internacional. Também por cá, o agigantamento da economia de guerra, num contexto de crise, mostrará a cada vez mais o papel cada vez maior da coerciva mão direita de um Estado cada vez mais de classe, à medida que se vai erodindo o Estado social. 

Haja guerra de posição, a que pode transformar-se em guerra de movimento. Haja objetividade, mas nunca neutralidade. E haja sempre uma fé nos peitos.

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