domingo, 19 de novembro de 2023

Da série: O impacto da procura de habitação por estrangeiros é residual

No recente livro da Iniciativa Liberal (IL) sobre a crise de habitação, embrulhado, para disfarçar, em papel +Liberdade, um dos mitos a que se recorre, para sustentar a tese de que o problema se resume à falta de casas, consiste na ideia de que o investimento imobiliário estrangeiro tem (tal como o Alojamento Local), um peso residual, devendo o mesmo, por isso, ser desconsiderado nas razões da génese e do agudizar da crise.

Esta ideia, contudo, não só desvaloriza o aumento significativo, nos últimos anos, da procura imobiliária externa (que representou 94% do total do investimento direto estrangeiro no primeiro semestre de 2023), como negligencia o facto de as procuras especulativas de habitação, nacionais e internacionais, assumirem uma lógica de incidência territorial cumulativa, que desaconselha, portanto, a olhar para cada uma delas de forma isolada.


Mas mesmo cingindo a análise de impacto à compra de casas por estrangeiros, e tomando o caso da Área de Reabilitação Urbana de Lisboa (ARU) como referência, vale a pena reparar nos dados recentes da Confidencial Imobiliário, divulgados pelo Jornal de Negócios. No primeiro semestre de 2023, a aquisição de imóveis de habitação por estrangeiros representou quase 25% do total (770 alojamentos num total de 3 150) e 28% do volume de negócios. E caso se considerem apenas as aquisições por particulares (excluindo as empresas), o peso relativo das compras por estrangeiros passa para quase 33% do total.

Sendo sobretudo nas freguesias do centro histórico que se concentram as compras de habitação por particulares estrangeiros, a Confidencial Imobiliário dá nota, no seu comunicado, que «o interesse dos estrangeiros por freguesias fora do centro histórico da capital tem aumentado», sendo nos territórios «mais afastados», como nos «casos de Benfica e São Domingos de Benfica, Campolide, bem como Alcântara, Areeiro e Alvalade», que «o número de transações internacionais mais cresceu». O que significa, portanto, que a procura externa de alojamentos não só não é residual, ao contrário do que insistentemente afirma a IL, como se está a alastrar a toda a cidade.

3 comentários:

  1. Significa ou não significa, não sei. A Confidencial Imobiliário vende casas, ou ajuda a vendê-las, provavelmente há uns projectos imobiliários naquelas zonas e eles estão a tentar captar compradores.
    Já lá vão vinte e tal anos, mas lembro-me dos gráficos na secção imobiliário do Expresso. Punham uns limites baixos, tipo 200/300 contos por metro quadrado, e é claro, a seta estava sempre a subir. Entusiasmados, alargaram os desenhos à província. Fiquei com a ideia de que o objectivo era "compre já, os preços vão subir". Depois veio uma das nossas crises e os gráficos desapareceram.

    Jornalismo Night and Day ou Elefante Branco.

    Também por esse tempo a secção de Imobiliário do Expresso noticiava que o Atrium Saldanha estava havia um ano à venda e SÓ tinha vendido 10% das lojas. Acrescentava o jornal que para desfazer o mal viria aí uma campanha publicitária (que o Expresso, suponho, terá perdido). Poucas semanas passadas o DN noticiava que JÁ tinha sido vendido 10%.

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  2. A Iniciativa Liberal é ridícula. Mais valia ficarem-se pelos memes no Twitler.

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  3. Há alguma procura por estrangeiros que fazzem subir os preços. Resta saber se proibirmos os estrangeiros de comprar os preços descem.
    Há outro pequeno problema, os nacionais não têm dinheiro para comprar, mesmo com os preços baixos. A menos que pense que quem está a construir habitação a preços altos continuará a construí-la se passar a perder dinheiro.
    Se houvesse portugueses com dinheiro para comprar casas a preços do mercado existiria oferta para eles também. Não vejo um promotor deixar de ganhar dinheiro porque prefere vender a estrangeiros.

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