terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Crimes de guerra

"Talvez isto o ajude um pouco"

O que se ouve a uma pessoa que é seguida regularmente em consulta externa de um hospital público e que preferiu manter o anonimato:
"- Hoje, a enfermeira M estava particularmente conversadora. Disse-me que a unidade X que havia no hospital, onde fiquei internada quando tive o acidente, fechou por causa do Covid e não se sabe quando abre outra vez. Os médicos que a chefiavam foram todos para o privado. Há rumores que vai abrir outra vez, mas não se sabe com quem. E já se fala há tanto tempo que ninguém acredita já nisso. "Isto está muito complicado", dizia ela. "Antes essa unidade conseguia fazer a diferença, as pessoas eram tratadas e em dias ficavam bastante melhores e eram seguidas aqui. Agora, não se sabe o que é feito dessas pessoas e como estarão". Essa unidade não foi substituída por outra em nenhum hospital. Quem está à frente desse tipo de unidades começa a pensar que, nestas condições de trabalho, sem perspectivas, sem carreiras, sem horários, sem vida própria, mais vale ir para o privado. "Nem sequer é receber mais", dizia ela. "É ter folgas, ter uma vida pessoal. Porque o trabalho não se compara. Lá não se aprende. Aqui é que as coisas acontecem. Todos os dias recebo propostas para ir para o privado, mas o que oferecem em termos de trabalho não é nada aliciante face ao que se vive num hospital público. Lá é fazer coisinhas, aqui lidamos com tudo. E eu sei do que falo porque trabalho no público e no privado. E o que me oferecem lá não se compara em responsabilidade com o que eu tenho aqui. Não tenha dúvidas: lá o objectivo é fazer dinheiro. Tudo é feito nesse sentido: não se preocupam com o bem-estar das pessoas. É muito mau o que está a acontecer. Porque não nos vamos safar com seguros de saúde. O que acontece quando se acabar o "plafond" do seguro? Como se tratam essas pessoas? Nós vemos como é nos Estados Unidos. É isso que vamos ter aqui?", Baixou os olhos. "Olhe, vamos esperar por dias melhores..."

-Não podemos esperar - interrompi eu - Nem vocês, nem nós. Não viu o que se passou em Espanha?

- Não.

- Houve manifestações com centenas de milhares de pessoas em defesa do sistema público de saúde. Não podemos deixar que as coisas descarrilem. Senão estamos perdidos.

- Sim, as pessoas não têm consciência do que é ter um SNS - olhou para o monitor - Olhe, eu depois ligo-lhe para lhe dar os resultados das outras análises. Não fique aqui à espera que perde a manhã. Tudo bom. Vamos esperar por melhores dias...

Já não voltei a insistir que não podemos resignar-nos a esperar. Porque tudo o que aconteceu, aconteceu diante dos nossos olhos. E sem uma guerra a sério, não vai parar. Porque o dinheiro fala mais alto. E nas instâncias políticas, fala mais alto quem segue o dinheiro."
É isto!

3 comentários:

  1. No privado fazem contas; é horrível!
    No público limitam-se a limitar a despesa, limitando os meios; é outra comodidade!

    No privado, o cliente tem o preço dos seus azares e dos seus desmandos; é horrível!
    No público, o cliente tem o necessário sem que lhe questionem a origem; é outra comodidade!

    No privado, o cliente pergunta-se se deve ir e onde, a que preço; é horrível!
    No público, o cliente vai quando e onde quer; tendo tempo e paciência, é outra comodidade!

    ResponderEliminar
  2. "Vamos esperar por melhores dias."

    Sem dúvida um dos grandes sucessos do Capitalismo na sua fase neoliberal, a desmoralização das suas vítimas.

    Tanta é a desmoralização que depois de tantas e fortes pancadas as vítimas continuam assim, resignadas à sua opressão, sem conseguirem imaginar nada para além desta precária e distópica realidade neoliberal.

    Nós estamos condenados à miséria se permitimos que Neoliberalismo continue, isto não é especulação! Desafio seja quem for a me mostrar o oposto.

    ResponderEliminar
  3. Caro José,
    É isso mesmo. O seu texto revela o que há de preconceito no discurso de direita quanto à Saúde pública: a estranheza de que esteja consagrado que qualquer cidadão tenha acesso à saúde, sem ter de recorrer à saude paga, prejudicando uns tantos donos de um dos negócios mais lucrativos do mundo.

    Fica apenas uma ressalva: a limitação da despesa pública - que tanto critica - surge em obediência aos cânones orçamentais liberais da UE que visam - por enviesamento ideológico - um estrangulamento desse serviço público, em defesa dos interesses desses donos do negócio.


    Deixo-lhe ainda, em anexo, o artigo 64º da Constituição da República Portuguesa, que tanto querem rever:

    1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
    2. O direito à protecção da saúde é realizado:

    a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
    b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.

    ResponderEliminar