sábado, 22 de maio de 2021

Regressos há muitos


No fundo, para que a moeda tenha um impacto previsível na economia, tem de ser gasta de uma forma previsível. E tal só acontece se o Estado gastar. A política monetária só é eficaz se o Banco Central for um agente do Tesouro. Mas ninguém admite isto, porque o Tesouro é perverso e o Banco Central é virtuoso. Assim, a política monetária permanece a língua oficial da política macroeconómica. Qualquer correlação com a política orçamental é pura coincidência.

Com fina ironia e imensa sabedoria, Robert Skidelsky destila num parágrafo décadas de pensamento crítico na tradição keynesiana ou não fosse o autor da mais completa biografia de Keynes (por traduzir). A sabedoria macroeconómica convencional das últimas décadas não passou de uma forma de ofuscação para benefício do capital financeiro. 

É claro que esta sua discussão sobre o que realmente está a acontecer num contexto de incerteza é sobretudo relevante para países com soberania monetária, como o Reino Unido. No nosso caso, temos um Banco que não é de Portugal, estamos dependentes da bondade monetária de estranhos neoliberais, ao serviço do mercado único e da política única que lhe tende a estar associada, e temos receio de regras orçamentais austeritárias só temporariamente suspensas. Neste contexto, não haverá socialização do investimento relevante.

2 comentários:

  1. O que não deixa de ser curioso é por que diabo então é que a Alemanha, que nunca alinhou no keynesianismo, se tornou a primeira potência económica da Europa, com um modelo industrial, muito antes do Euro?

    A adesão do RU à então CEE fez-se porque, como bem notava o insuspeito Larry Elliot em artigo publicado no Guardian de 5 de Maio, o crescimento económico continental ultrapassou o britânico...

    Se calhar, a previsibilidade dos gastos do Tesouro não é assim tão grande (ou vá lá, consistente) porque depende em democracia dos ciclos políticos, essa coisa chata que leva os Governos a tentarem ganhar eleições abrindo os cordões à bolsa. E as capacidades do Estado como gestor público também deixam bastante a desejar, com exemplos que são legião...

    Vejam-se os disparates cometidos na CGD, para um exemplo local e recente... O João Rodrigues não vai sugerir que gestores nomeados pelo PCP-PEV e pelo BE farão melhor, ou vai? É que se vai isso só dá vontade de rir...

    E cabe lembrar que o paradigma keynesiano original teve o seu dobre a finados com a crise dos anos 70, que representou igualmente o crepúsculo da social-democracia, muito antes da Terceira Via de Tony Blair...

    Mas estes simples factos não parecem representar um problema para a narrativa de quem tem a ideologia e só ela como seu guia, mau grado o facto de o sistema que ainda defende ter colapsado com grande estrondo há uns 30 anos...

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  2. "No fundo, para que a moeda tenha um impacto previsível na economia, tem de ser gasta de uma forma previsível. E tal só acontece se o Estado gastar."
    O Estado vai então escolher em que gastar e quem vai beneficiar. No caso do PRR, escolheu (como quase sempre) as empresas de obras públicas. Os outros ficam à espera que lhes calhe "uma pinga que escorra" (para quem não gosta da economia do pingo ...).
    Deve ser bom ser amigo de quem, no Estado, escolhe onde gastar o dinheiro.

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