sábado, 18 de julho de 2020

A pandemia é uma crise simétrica?

Os dados divulgados no último relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE) traçam o retrato das 19 freguesias da Área Metropolitana de Lisboa (AML) que continuam em estado de calamidade, dado o elevado risco de contágio. Nestas freguesias, que se distribuem entre Amadora, Odivelas, Sintra e Loures (e 1 em Lisboa), vive mais de um quarto da população da área metropolitana. Vale a pena olhar para os números, já que contam a história de uma crise que está longe de ser simétrica.

A primeira diferença assinalável entre as regiões é a da densidade populacional: nas 19 freguesias confinadas, é sete vezes superior ao resto da AML. Além disso, as casas são geralmente mais pequenas e os casos de sobrelotação são bastante mais comuns - basta ver que a proporção de edifícios com 7 ou mais alojamentos é substancialmente superior nas 19 freguesias afetadas (30,6%), face à restante área metropolitana (13,9%). Percebe-se a relação que existe entre estas características da periferia de Lisboa e a evolução demográfica do país, que levou cada vez mais pessoas a deslocar-se para a AML nos últimos tempos. Percebe-se, também, que as condições de habitação são determinantes para o risco de contágio.

Por outro lado, ao contrário do que tem sido sugerido pelo Governo, a utilização dos transportes públicos também parece ser relevante. O relatório do INE nota que "No território em estado de calamidade, a proporção de deslocações com utilização do transporte público para fora do município é 14,0%, mais do dobro do observado no restante território da AML (6,7%)". É difícil negligenciar uma diferença tão expressiva quando se analisa a evolução da pandemia.

A combinação das condições habitacionais precárias com a necessidade de manter as deslocações (por se tratarem de pessoas que desempenham serviços essenciais, geralmente mal pagos, ou que precisam de procurar trabalho) só podia ter este resultado. Estes dados, aliás, estão em linha com o que foi sendo conhecido através das reuniões no Infarmed, nas quais, por exemplo, se ficou a saber que os imigrantes são desproporcionalmente afetados pelo vírus (são 1/4 dos infetados em Lisboa e 16% no Porto). É cada vez mais notório que a pandemia não afetou todos da mesma forma e está a expor as desigualdades. Nesse sentido, os dados divulgados confirmam o que já se sabia: a precariedade e a exclusão social são mesmo fator de risco.

7 comentários:

  1. Os mega-guettos de Lisboa serão sempre uma catástrofe dentro da catástrofe.

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  2. Nem mais.

    (e espero que nos poupem às idiotice sobre as teorias eugénicas recauchutadas e embrulhadas em papel pardo holandês)

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  3. Falar em mega-guetos em Lisboa é de alguém que não vive em Lisboa.
    Ou de alguém que não sabe nem o que são guetos,nem o que é mega.
    Ou de alguém que nem sabe que se fala em Área Metropolitana de Lisboa e não em Lisboa

    Posto este esclarecimento, escrito em português e em Portugal, passemos à questão central do post:

    "a precariedade e a exclusão social são mesmo fator de risco"

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  4. Não creio que o Governo tenha dito tal coisa, Vicente Ferreira, o que os estudos aparentemente mostram é que o risco de contágio nos transportes públicos parece ser pequeno.

    O Vicente Ferreira olha para duas variáveis em correlação (uso dos transportes públicos e número de infectados) e diz que daí só pode concluir-se que uma coisa causa a outra.

    Dou de barato que viver num agregado familiar numeroso e em casas pequenas assim como andar em autocarros ou comboios apinhados apresenta um risco maior do que viver-se só e conduzir-se um carro. Resta saber quanto...

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  5. Aleluia.

    Jaime Santos dá de barato.

    Quanto aos estudos devia ser mais cuidadoso. Poderia simplesmente dizer que "há estudos que mostram que aparentemente..."

    Há uma diferença entre não ser possível provar cientificamente a relação entre os surtos de Covid-19 e a utilização dos transportes públicos e comprovar que essa relação não existe.

    A DGS saiu com uma orientação sobre procedimentos nos transportes públicos e Marta Temido contrariou a opinião do seu colega de governo

    O Centro Europeu para a Prevenção e Controlo da Doença defende que se deve reduzir o número de passageiros por transporte.

    Os Centros para o Controlo e Prevenção da Doença norte-americanos também acautelam para os riscos nos transportes públicos.

    A China vai ainda mais longe como se sabe. E com os resultados que se sabem

    E os dados apresentados por Vicente Ferreira, tal como muitos outros, reforçam a convicção que.


    Claro que nem todos podem prescindir de transporte público. Claro que há quem tenha que utilizar transportes públicos porque a isso obriga a vida e o seu sustento. Claro que há quem prefira argumentos económicos em detrimento da saúde de quem trabalha. Sobretudo se o risco repousar nos outros.

    A última frase de JS é todavia manifestamente infeliz.
    "Resta saber até quando". Nem vale a pena dissecá-la para ver onde nos levam raciocínios deste género. Suspeito que um tipo um pouco mais inteligente que Bolsonaro a poderia utilizar

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  6. É mais que evidente, então não é?

    E assim dessa forma pianinha, João pimentel ferreira volta com um seu adquirido nick,desmascarado há um par de meses. Assim como quem passa por baixo da piscina, com que o sabujo do ministro holandês retratava os "mandriões do sul"

    E com um "mais que evidente" que se coaduna com uma qualquer resposta neoliberal à interrogação que encima o post de Vicente Ferreira.
    Mas assim desta forma fofinha, para ver se passa

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