quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Como se tudo fosse deles

Os socialistas têm a fama de, quando estão no Governo, usar o aparelho do Estado e os seus fundos de forma opaca, como se tudo fosse seu por emanação republicana, sem dar conta do que fazem, nem das razões por que o fazem ou dos verdadeiros interessados nas medidas adoptadas.

Pode ser injusto. Mas o problema é que quando chegam ao Governo pouco fazem para que essa fama se desvaneça.

Dois exemplos. O primeiro tem a ver com as recentes e desajeitadas declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros - mais uma vez! - sobre matérias que não tutela e das quais - por certo - pouco ou nada saberá senão a teoria geral do problema. Disse ele numa entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios que o Governo iria manter o regime dos contribuintes residentes não habituais.

Porquê? Porque...
"O regime dos residentes não habituais é um regime muito importante para a economia portuguesa que tem permitido atrair valor para a economia portuguesa, quer investimento quer pessoas".
Ora, o problema é precisamente o pouco que se sabe sobre os beneficiários deste regime.

Esta decisão política foi anunciada sem qualquer estudo de impacto económico deste regime desajustado e desigual. Como já anteriormente, aqui se escreveu, só em quatro anos o Estado aceitou dar 1,2 mil milhões de euros a pouco mais de uma dezena de milhar de contribuintes. Mas o mais caricato é que o Ministério das Finanças não divulga que profissões têm essas pessoas, nem valores de rendimento declarados ou dos investimento ligados a estes contribuintes. Sabe-se, como se pode ler no post já mencionado que, na sua aprovação plena, estavam interessados os grandes escritórios de advogados, incluído o escritório onde é advogado o socialista António Vitorino.

Mas sem aqueles elementos, tudo parece um jeito a alguém que não precisa e que, a julgar pelas declarações entusiastas de Santos Silva, o ministro lá saberá quem são. Na realidade, não se sabe por que razão tem o Estado de promover a sua presença em Portugal. Estranho é que a direita - sempre tão preocupada com os almoços que não são grátis - aqui aplauda o Governo.


O segundo exemplo tem a ver com o recente anúncio de que o Governo irá aprovar - em plena bolha imobiliária - mais um veículo financeiro que pretende surfar essa onda e beneficiar mais uns detentores de fundos de investimento imobiliário. E - mais grave ainda! - com benefícios fiscais.

A medida é polémica, mesmo no seio do próprio Governo. Mas aquele que é o homem de confiança do primeiro-ministro - o ministro adjunto Pedro Siza Vieira - consegue comprometer o primeiro-ministro na aprovação desse diploma, sem que se perceba bem a razão desta boa vontade, e sem qualquer discussão aprofundada. E este já não é o primeiro caso, como é possível ver aqui.

Já a comunicação social, essa, contínua um pouco acéfala: Veja-se aqui a notícia.

"Era a notícia que os investidores estavam à espera", escreve a arrancar a jornalista do Expresso, sem que se questionar quem são esses investidores.
A quem interessa este tipo de sociedade? O ministro fala de uma lacuna no mercado, porque é preciso “dar um contributo para a criação de habitação a preços acessíveis nas cidades". Portanto, é para os habitantes de Lisboa, para promover o arrendamento de longa duração. É apelativo. Mas não é só isso:
“Não é apenas para residencial. Temos muitas empresas a investirem em Portugal e a criar empregos que precisam de espaços de escritórios e para isso precisamos que haja também oferta de arrendamento para escritórios. Temos muitas empresas a querer investir na indústria que precisam de imóveis industriais e de armazéns e esse tipo de investimento produtivo precisa de encontrar uma oferta de arrendamento que veículos exclusivamente dedicados para o arrendamento poderão satisfazer”, rematou.
Ora aí está uma afirmação estranha. E para isso é necessário criar estes mecanismos? Não há outras políticas? E como vai isso ser feito? Não se sabe. Mas o diploma já é dado como aprovado. E sê-lo-á por certo com os votos à direita. E mesmo sem haver dinheiro, haverá - mais uma vez!! -benefícios fiscais para as apoiar...

Ficam os dois casos.

9 comentários:

  1. Acho que ninguém se surpreende que aos dois ministros mais à direita do governo lhes deia para isso...

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  2. Subsídios é à ganância.
    Diminuições ao saque...um problema!

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  3. Já contabilizar o tempo de serviço aos professores é que não pode ser!

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  4. Eis a ganância do Capital, servindo-se dos seus agentes para o saque.

    Zeca falava em vampiros. Eles aí estão, a comer tudo e a não deixar nada. Cristas e Macedo são uma das faces da moeda. A direita do PS a outra face.

    Preciso quebrar este ciclo viciado dos que saqueiam a riqueza e querem sempre mais

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  5. Curioso como os defensores da especulação e da bolha imobiliária passam agora por baixo do tapete, disfarçando-se atrás de "subsídios" e do "saque".

    Nem um único som agora em prol dos mercados e dos investidores. Nem um único pio a defender a chulice dos vistos gold

    Há silêncios tramados. E contorcionismos dignos das artistas de circo contorcionistas

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  6. Pois aqueiam a riqueza?
    Quem mais saqueia senão o Estado que se diz dos coitadinhos e se aplica sobretudo a dar de mamar à clientela.

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  7. Não sai disto o pobre jose:

    Dos "coitadinhos" e do "mamar"

    Vemos mais uma vez a aversão, como qualquer neoliberal, ao Estado, pugnando pela mão invisível que há-de satisfazer os saqueadores.

    O Estado que saqueia regra geral quando está ao serviço desses mesmos projectos neoliberais e para os quais este jose não se lembrou de piar. Era ver o saque de ordenados e de pensões durante o consulado daquele criminoso de nome passos coelho

    Ou o Estado protector do Capitalismo monopolista do Estado do tempo do Estado da outra senhora e pelo qual este mesmo jose não se cansa de recitar

    Já percebemos há muito. Para além de um suspeito trauma infantil, quando jose fala em "mamar" é apenas para se queixar que não deixam os mamões do costume continuarem a mamar

    Como ele quando se queixava por se combater a especulação imobiliária e não o deixarem ter a margem de lucro a saquear

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  8. Recupero este "velho" post para assinalar um ponto de actualidade:

    O Guardian acaba de publicar uma peça sobre os regimes de vistos gold:

    "Europe’s security is being put at risk by so-called “golden passport” schemes that have allowed states to sell citizenship or residency to potentially “dangerous” individuals, the EU justice commissioner has warned."

    Tradução automática:

    "A segurança da Europa está a ser posta em risco pelos chamados esquemas de "passaporte dourado" que permitiram aos estados vender cidadania ou residência a indivíduos potencialmente "perigosos", advertiu o comissário de justiça da UE."

    "Věra Jourová described the programmes as “problematic” and “unfair” – echoing the private concerns of Europe’s intelligence agencies, who fear “golden passports” have been exploited by people with enough money to buy access to the UK and Europe."

    Traduzindo:

    "Věra Jourová descreveu os programas como “problemáticos” e “injustos” - ecoando as preocupações privadas das agências de inteligência da Europa, que temem que “passaportes de ouro” tenham sido explorados por pessoas com dinheiro suficiente para comprar acesso ao Reino Unido e Europa."

    Quando até a mui neoliberal comissão europeia na pessoa da comissária da justiça "exprime a sua preocupação", é um claro sinal de que "a coisa" assume proporções escandalosas e ameaçadoras.

    Artigo aqui:
    https://www.theguardian.com/world/2018/oct/16/golden-passports-threaten-european-security-warns-eu-commissioner

    S.T.

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