quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Chamam-lhe populismo


Ontem no Brexit, agora com Trump, amanhã com Marine Le Pen, trata-se de rebentar um sistema criado para gerar desemprego, desigualdade e insegurança. Encurralados, é isso o que os de baixo querem. Chamam-lhe populismo.

Boa parte da esquerda não percebe isto, propondo-se apenas reformar o sistema e geri-lo melhor. Não admira que os mais desesperados se virem para quem lhes promete que rebentará com o poder das elites instaladas, mesmo que o seu programa seja inconsequente. Votam contra o sistema.

De facto, é da crise das esquerdas que devemos ter medo. E, se temos mesmo medo, não fiquemos à espera de melhores dias. Organizemos a alternativa. Nos países da UE, isso passa pela criação de uma frente política de libertação do euro. Uma frente inclusiva, mobilizando todos os democratas para a conquista de uma maioria patriótica e de ruptura com o sistema. Uma vez recuperada a soberania, o confronto democrático seguiria o seu curso normal. É isto que precisamos de fazer, em vez de ficarmos a discutir as décimas do défice ou a pedir à UE a reestruturação da dívida.

12 comentários:

  1. Olha a esquerda a dizer "Eu também existo!!".

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  2. As pessoas que deram a maioria a Trump, Jorge Bateira, não foram descamisados, como eu já referi noutras postas (consulte se quiser os links que dei do Guardian e no WP). Podem sentir-se deixados para trás pela globalização, mas não são certamente eles os que estão em pior situação. O mesmo se passa com o Brexit, onde a maioria dos votantes pertencia ao partido conservador. Francamente, não sei como a Esquerda os vai representar mantendo-se como Esquerda. E certamente, não é desfazendo o Euro por cá que lhes vai garantir mais segurança económica, se é isso que procuram. Lembra-se quando se insurgia contra as pessoas abastadas? Pois, é destas que falava. Os ricos podem sempre pegar nas suas poupanças e ir para outros sítios. Mas, seja como for, fico à espera do seu plano para a saída do Euro. Não pode é ser tão nebuloso como as propostas de Trump. É que o problema das alternativas que circulam, Trump, Marine Le Pen,Theresa May, Podemos, até o Syriza, é que elas na verdade são pseudo-alternativas. Como o 'povo está enjoado de especialistas', pedem-nos que confiem neles e pronto. Como dizia e bem o FT, esse baluarte do Capitalismo, já sei, 'But can anybody tell me the last time a prevailing culture of anti-intellectualism has led to anything other than bigotry?'

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  3. Sei que sou da Esquerda apóstata (Verde, europeísta até prova em contrário) e por isso gostava de saber se a coligação proposta também envolve a minha tribo.

    Pela minha cabeça digo que como está não pode ficar e, se não conseguimos reformar o Euro (muito difícil, teria de haver transferências internas) temos de acabar com ele; e se não conseguirmos consertar ou concertar a UE temos de dizer «Obrigado e Boa sorte».

    Mas temos já de rebentar a corda? Não podemos começar por dizer o óbvio: «assim, não funciona; é preciso melhor» e a partir daí fazer o que tem de ser feito?

    Julgam que vai ser o mesmo sem UE? Não se lembram como olhávamos para os espanhóis há nem vinte anos?...
    Não há Esquerda sem sonho, e a UE é um sonho bonito. Não abramos mão dela tão facilmente.

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  4. "Votam contra o sistema."

    Os que votam contra o sistema querem ouvir propostas (racionais) de esquerda, como a saída do euro? Não. Se é para votar contra o sistema mais vale votar em propostas irracionais, e a única solução é votar Trump, Le Pen, ... (vide Slavoj Žižek). Na conquista do voto contra o sistema a esquerda (séria) não tem hipóteses. Não fala em construir muros, expulsar emigrantes, ... Nada menos do que isso "chega".

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  5. "Votam contra o sistema." (mais uma achega)
    Os "encurralados" pelo desemprego, desigualdade e insegurança não querem respostas "complexas" e racionais como "saída do euro" (no caso Europeu) ou Socialismo (no caso Americano). Querem respostas, ou melhor promessas", simplistas: muros, expulsão de imigrantes, vigilância dos muçulmanos, ... As soluções ponderadas não as entusiasmam. São até sinais do elitismo que pretendem combater.

    Um partido como o BE, por exemplo, nunca poderia fazer propostas aceitáveis para estes encurralados que votam contra o sistema porque (na sua visão) o BE é um partido de intelectuais, da elite, do cosmopolitismo, no fundo ... do sistema.

    Daí que Žižek já tenha percebido que a implosão do sistema nunca pode vir das propostas da esquerda, que nunca fará propostas com radicalidade (e simplismo) suficiente para os satisfazer (propostas racistas, xenófobas, nacionalistas, ...). Há limites para a esquerda. Estas propostas terão sempre que vir de um Trump. Este levaria ao colapso do sistema e depois, segundo Žižek, as propostas de esquerda poderão então ser ouvidas. No entanto, penso que ele está enganado e haverá "normalização".

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  6. E´ natural que comparem Trump a Hitler ou a outros fascistas, tal qual o fizeram nas Terras do Tio Sam, mas a verdade e´ outra… E´ que ele, Trump, teve a sapiência de informar que já não vê necessidade da NATO 25 anos depois do colapso soviético. Mais, Se ele, Trump, mantiver esta visão, isto significa que haverá grandes mudanças políticas entre os amedrontados vassalos de Washington na União Europeia.
    Talvez as hostilidades em relação à Rússia dos atuais responsáveis da UE e da NATO tenham de cessar. Possivelmente a chanceler alemã Merkel tenha de mudar seus planos estratégicos ou ser substituída. Quem sabe se o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg terá de ser demitido?. E´ por isto e muito mais que o comparam ao Führer Nazi. Meus amigos, abram bem a pestanha… de Adelino Silva

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  7. Para a idiotice dum comentário sobre a esquerda e a sua existência, para aqueles que pregam em nome duma "esquerda" contra as pseudo-alternativas, para aqueles que nos intimam à rendição (porque os ricos podem ir para outros sítios), aqui vai, em memória de Leonard Coehen, a melhor das respostas

    https://www.youtube.com/watch?v=--bxTVx8L8E&list=RDS34cVkL6zCE&index=5

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  8. Pois é, pois é... As reflexões já feitas pelos anteriores comentaristas levam-nos a tirar conclusões muito interessantes...
    Falemos de "esquerda". A pergunta que se impõe é: "que esquerda"? Ter-se-á alguém apercebido que uma das grandes derrotadas pelo terramoto "trumpeano" foi, nem mais nem menos, a "esquerda" - velha e nova - europeia? Desta esquerda entre aspas fazem parte, no que aqui ao rincão diz respeito, o nosso querido e vetusto PS e o nosso juvenilíssimo Bloco de Esquerda (não me vou debruçar sobre o PCP: perdeu o Norte com o fim da URSS e parece ainda não ter encontrado a porta de saída do quarto escuro). Do primeiro nem vou falar, pois ele não faz parte do sistema: ele é o próprio sistema. Já o caso do segundo, merece-me uma análise mais aturada. O Bloco está para a esquerda como o vinho martelado está para um genuíno Borba: parece vinho, tem cor de vinho, cheira a vinho, pode até ter um sabor que, para os menos conhecedores, o aproxima do vinho, mas vinho é coisa que não é. Explico-me: ao velho internacionalismo, fez o Bloco suceder o cosmopolitismo "chic"; à abordagem da sociedade laboral como um todo transgeracional preferiu o Bloco a abordagem segmentária dessa sociedade entronizando "os jovens" como as vítimas primeiras das malfeitorias do capital (isto num país que é um dos 10 mais envelhecidos do mundo, note-se); às grandes lutas sociais dos coletivos mais ou menos vastos preferiu o Bloco as lutas "identitárias" de grupos mais ou menos residuais (estava a Troika com um pé cá dentro e o BE batia-se galhardamente pelo problema ingente que, a não ser revolvido urgentemente, levaria o país à penúria: o sacrossanto casamento "gay"); ao anti-imperialismo e ao antibelicismo radicais fez o Bloco suceder o apoio incondicional ao neoimperialismo consubstanciado na "intervenção humanitária" que tão boas provas deu na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão, na Líbia (ai as saudades que eu tenho da feroz defesa dos "democratas" líbios feita no defunto "Arrastão"!)e na Síria. A pergunta impõe-se: se tudo o que definia - e, a meu ver, ainda define - a esquerda foi alijado, que "esquerda" é essa que de esquerda nada tem? Avanço uma possível resposta: é um dócil e conveniente assistente do "status quo", é os confortáveis arrumos da cave onde os progenitores donos disto tudo, membros do Opus Dei e reacionários até à medula, deixam os seus petizes beber umas cervejolas, fumar uns charritos e praticar atletismo sexual até que a chatice das borbulhas do acne lhes passe. Mas a vida tem coisas tramadas, e eis que o terramoto com epicentro nos States veio dar com a tão arrumadinha mansão em ruínas. Acontece muito a quem dorme tão profundamente que não dá pelos sucessivos abalos que prenunciam o grande cataclismo: se Roma não paga a traidores, certo é que os traidores que a ela se aliaram, não lhe partilhando o ouro, da sua morte partilharão.

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  9. Um comentário assaz pleno de Borba esse aí das 00 e 42. Com cheiro a charrito de marca e a fazer enterros apressados enquanto pratica a arte onanista dentro do armário.
    Aposra-se que no intervalo vai ao futebol e mete a cabeça na areia para nao ver o que se passa.
    Um figurão do império romano.
    Quanto ao epicentro ainda nao percebeu que nao há só um. Estava entretido a construir legos.

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  10. Uma análise profundíssima e cheia de conteúdo aí essa das 00:42. Pena é que o comum dos mortais - certamente por culpa do seu fraco entendimento e da sua nula cultura - não tenha entendido a ponta de um chavelho do obnóxio arrazoado. Mas a vida é assim: há quem pratique a "arte onanista dentro do armário" ao mesmo tempo que "constrói legos" e há quem, genialmente, se não canse de ser sodomizado pelos mesmos de sempre enquanto responsavelmente brinca com fósforos no meio do paiol. Uma perguntinha simples: terá Vossa Excelência entendido puto do que se passa neste mundo ou a cabeça enterrada no esterco enquanto lhe vão ao "derrière" impossibilita-lhe toda e qualquer perceção da realidade?

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  11. Por um lado, também me parece que o populismo é um conceito grato à linguagem do politicamente correto, mas urge que reformar profundamente o sistema, sem partirmos de uma vontade radical de rebentarmos com ele. O Euro no sistema financeiro internacional atual não funciona, mas acabar com ele poderá ser excessivamente revolucionário, mas convém pensar numa transição para um sistema misto de vários Euros ou eventualmente num regresso às soberanias monetárias, todavia isto exige muito ponderação e discussão na opinião pública.
    Por outro lado, da única super-potência sobrante assusta pensar que foi eleito um Presidente que promete ser tão parecido com G. W. Bush na sua impetuosidade arrogante. Depois dos anos da esperança do "Yes we can", vem a promessa de um EUA interessado no seu umbigo, o que deixa grandes incertezas depois da afirmação de protagonistas promissores como o Papa Francisco ou António Guterres que nos abriram, digo ao mundo, uma janela de esperança. Virão de novo tempos difíceis, porque a estratégia de fechamento ao exterior, como foi o caso recente do Reino Unido com o "Brexit", não trás nenhum bom augúrio. Esperamos que as forças moderadas dos EUA e dos seus Aliados externos o possam limar nas arestas mais cortantes... Designadamente, de o impedir que um dia carregue no botão das bombas atómicas, porque o mundo não comportaria uma guerra nuclear, ou seja, uma terceira guerra mundial, pois as bombas nucleares que hoje existem são bem diferentes das de 1945 e a sua dispersão geográfica implicaria uma catástrofe para a Humanidade e para o planeta.

    Cordialmente,
    Nuno Sotto Mayor Ferrão
    www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

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  12. Como é óbvio, mas não explícito, o meu anterior comentário das 13:44 referia-se ao autor da pérola analítica das 02:48. É o que dá responder a extraterrestres: os fusos horários tendem a baralhar-se.

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