domingo, 26 de junho de 2016

A imigração é tudo menos um assunto menor

Dê-se de barato que foi o tema da imigração que motivou o recente terramoto no Reino Unido e que se irá propagar pela União Europeia.

Não é por acaso que os povos migram. Cada caso é uma história, mas talvez se possa olhar para as grandes linhas. Na massa, a imigração é sempre a válvula de escape de um sistema desequilibrado. Seja pela guerra, seja pelas diferenças de condições económicas e sociais. Os números dos gráficos seguintes, juntamente com mais informação, podem ser encontrados no último boletim estatístico sobre os movimentos migratórios no Reino Unido, divulgado pelo organismo estatístico oficial britânico.


Portanto:
1) Não parece ter sido a imigração de fora da UE que está a inundar o Reino Unido. Essa parece estar em recuo desde 2005 e parece estar mais ou menos estabilizada desde 2013;
2) a que está a subir - desde 2012 - é precisamente a imigração que vem da União Europeia.

Olhemos, mais em pormenor:


Ora:
1) A emigração que está a subir é a que vem da Bulgária e Roménia;
2) mas sobretudo dos países de UE15 - Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal, Irlanda, Grécia, Suécia e Reino Unido (embora se exclua esse grupo). E este grupo U15 tem estado a crescer desde 2012. Em 2015, representavam quase 50% da imigração da UE.

Algum sugestão para esse facto?


Sim, claro. É por "trabalho" que se está a verificar a subida de imigração. Mas a minha pergunta era mais qual a razão porque há mais pessoas da União Europeia a procurar trabalho no Reino Unido?

Pois, lá teremos de voltar a falar de todo o edifício da política seguida desde o rescaldo da crise económica de 2007/8 e que adoptou aquela teoria de que a austeridade iria provocar um milagre económico na União Europeia.

De facto, o milagre já começou. Seguem-se os próximos dentro de momentos.

12 comentários:

  1. Eu até aposto que o aumento da imigração no RU atribuído aos países da UE15 pode ser sobretudo explicado por emigração a partir da Europa do Sul (Portugal, Espanha, Itália, Grécia) e da Irlanda, que foi igualmente sujeita a medidas de austeridade. Parece-me óbvio, a emigração tem funcionado como válvula social em Portugal desde há muito. Podemos inclusive dizer que é legítimo que quem no RU vê os serviços sociais mais degradados (pela austeridade de Osborne e Cameron) e mais repletos de pessoas, se preocupe com a imigração. O problema não é sequer a discussão do tema na campanha, são os termos em que isso foi feito, claramente xenófobos e as pessoas que ganharam a dita campanha à custa da exploração desses temas, isto é, Farage, Johnson, Gove, os racistas do Leave.eu, etc, e que agora já vêm dizer que afinal não é bem como prometeram (aposto que o NHS colapsava sem os médicos e enfermeiros estrangeiros)... Ou seja, a campanha foi ganha pela Extrema-Direita. Ponto. De onde segue que a Esquerda que exulta com o Brexit e que vem agora procurar racionalizações e culpar exclusivamente a suposta elite liberal por este resultado, acaba de dar, como é costume, um valente tiro no pé. Aliás, note-se a pobreza da prestação de Corbyn, que é mesmo acusado de má fé e de ter desobedecido à vontade maioritária do seu partido: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/jun/26/corbyn-must-resign-inadequate-leader-betrayal. Para respeito pela vontade democrática e pela ética política, estamos conversados...

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  2. A campanha foi ganha pela extrema-direita com um ponto no fim é, salvo melhor opinião, a opinião legítima de Jaime Santos.

    Mas não passa disso mesmo.Duma opinião.

    Quanto aos tiros nos pés ... cada um dá os que dá.E cada um gosta do que gosta.mas falta ainda muito para tais opiniões serem consensuais.
    E ainda bem.

    Porque este é um comentário que tem exactamente os mesmos predicados que este comentário acusa. Poderá ser considerado como à cata de racionalizações

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  3. De um texto dos sindicatos britânicos: Trade Uniunists Agaist EU, (TUAEU):

    VOTE PARA TERMINAR COM O ATAQUE AOS TRABALHADORES
    É um mito que a UE é a favor dos trabalhadores. De facto a UE ataca os sindicatos, a contratação coletiva, a proteção dos postos de trabalho e salários.

    VOTE PARA TERMINAR COM A AUSTERIDADE
    Se aderimos a uma união esperamos que essa união nos proteja em caso de dificuldades. A UE faz o oposto. Usou a crise económica para impor austeridade e privatizações aos Estados membros. A UE colaborou na desindustrialização britânica e proibiu as ajudas estatais para promover o seu salvamento e a sua renovação.

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  4. A U.E. é uma grande democracia, têm é que estar sempre de acordo com ela!
    E se não estão significa que sois racista, misógino, homofóbico, fascista e provavelmente terrorista!

    Venha o referendo sobre a permanência de Portugal no Euro, podem chamar-me todos os nomes que quiserem que eu não me importo!

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  5. Caro Jaime,
    Claro que a direita se aproveita - muito facilmente - de um tema como da imigração. Esse é um dado do problema. A questão é tentar perceber como foi que a União Europeia levou a cabo uma política que - como era mais que expectável - só poderia ampliar as clivagens económicas entre países e, portanto, ampliar os fluxos migratórios, ainda por cima sem peias peias. Não foi por acaso: foi a forma do centro importar a mão-de-obra que sempre quis, tentando agora deixar à porta a que não quer.

    Mas politicamente a consequência apenas pode ser esta. Esta é apenas a primeira das peças. A extrema-direira continuará a subir porque a imigração ai está. E, num ambiente social cada vez mais degradado, a mensagem da extrema direita está à frente dos olhos de cada um. Nem são precisas palavras.

    De nada vale tapar as fronteiras. Nunca ninguém parou migrações. Apenas se consegue resolver este problema, revertendo o que foi feito. Caso contrário, mais pragas virão.

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  6. VOTE PARA TERMINAR COM OS ATAQUES AO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE
    O tratado transatlântico de comércio e investimento (TTIP) a ser negociado entre a UE e os EUA vai promover os grandes negócios à custa das proteções governamentais e serviços públicos como o SNS.

    VOTE PARA APOIAR A DEMOCRACIA
    Nenhum dos que tomam decisões na UE foi eleito. São todos muito ricos burocratas e banqueiros. São eles que fazem a maioria das leis e tomam decisões que afetam as nossas vidas. E nós não temos voz democrática para nos pronunciarmos sobre essas decisões"

    “A verdadeira questão para a UE nunca foi divulgada, que é a de tornar-se uma Europa plenamente federal na qual nos tornaríamos uma província. E nunca foi divulgada porque o povo nunca o aceitaria”
    Tony Benn

    Isto foi abundantemente espalhado nas zonas em que os sindicatos do Labour tinahm força.Também sei que, independentemente de outras causas, o Brexit ganhou nos outrora bastiões do Partido trabalhista.

    A realidade tem muitas faces. E estão são apenas algumas delas

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  7. "Naturalmente, cada país tem a sua própria cultura política. Mas esta oposição entre os "do alto" e os "de baixo" da sociedade é uma constante que se reencontra em todas as consultas sobre a Europa. Pois este manguito dirigido a Bruxelas é o quarto em menos de um ano. Os gregos (Julho 2015) , os dinamarqueses (Dezembro 2015) e os holandeses (Abril 2016) já haviam pronunciado um Não atroador aquando dos referendos quanto à Europa.

    Esta geografia social da recusa da integração europeia fora particularmente impressionando no referendo francês de Maio de 2005 que rejeitou o Tratado Constitucional Europeu (TCE). Um escrutínio que constituiu de certa forma um primeiro tremor de terra no seio da UE."

    Não ver isto é, pelo menos ,não ver uma parte de toda esta questão. Não vale a pena acenar com fantasmas,porque eles estão aí. Podem crescer? Claro que podem. Mas tudo está em aberto e o João Ramos de Almeida tem razão quando diz que a extrema-direita aproveita apenas o espaço que lhe deram e que lhe dão.

    Já João Rodrigues num parágrafo certeiro dissera ;"A posição a favor da UE é, como alertou a tempo Gisela Stuart, uma deputada trabalhista que esteve do lado certo pelas razões certas, o melhor “agente de recrutamento do UKIP na Grã-Bretanha”.

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  8. "A história da UE é a de desrespeito pelo resultado de qualquer referendo que lhe seja desfavorável, o que significa que este processo está longe de ter ficado encerrado. Mas o que a UE, nas actuais condições, dificilmente poderá conter é o generalizado descontentamento e insatisfação perante a situação existente. Descontentamento que está longe de identificar com acerto as suas causas, e que por esse facto envolve graves riscos. Mas que contém também um valioso potencial, se a luta dos trabalhadores e dos povos lhe der o sentido da ruptura com um sistema apodrecido e sem saída".

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  9. O referendo dos holandeses teve pouco a ver com "a Europa".

    Quanto à questão do federalismo escondido... Não seria melhor de facto uma federação do que aquilo que se tem agora?

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  10. Sempre se ignora que a austeridade travou uma deriva de financeirização (parece ser esse o termo que está em uso) de tudo o que mexe, largamente com aval ou estímulo do Estado.
    Uma vez que se verificou não ter essa financeirização dos compradores de votos um limite conhecido, travou-se a dívida pública!
    Os compradores de votos passaram a saquear tudo o que mexe e recusam-se a diminuir a sua actividade que é a única que lhes dá o pão.

    Resultado: havendo dinheiro disponível e barato, ninguém se mexe!


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  11. Sempre se ignora?

    Ó das 21 e 11 não seja ridículo, A ode à austeridade foi papagueada até à exaustão pela governança de Passos/ Cristas/Portas/Albuquerque. Replicada pelos media fidelizados até à náusea. E repetida por si ,com aquela pesporrência habitual, aos berros e os insultos com aquela saudade típica pelos tempos em que não havia votos,só mesmo os comprados pelo estado fascista

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  12. Tudo o que se mexe?

    Até onde vai a farsa encenada por esta coisa: tudo o que mexe largamente com aval ou estímulo do estado; compradores de votos ;travou-se a dívida pública; compradores de votos; saquear; tudo o que mexe (mais uma vez); diminuir a actividade; dinheiro disponível e barato; ninguém se mexe.

    Entre o tudo o que mexe e o ninguém se mexe: eis o retrato implacável da pesporrência ideológica de alguém. Mas também da sua indigência intelectual.

    Mas a propósito do dinheiro fácil e barato, vamos todavia citar ipsis verbis o modo como um "homem de negócios" - o das 21 e 11- defende os offshores " que o que evitam são os cretinos dos impostos sobre a fortuna, o que acautelam é que a penhora decorrente de avales e outros riscos garantam a subsistência de quem corre riscos de investimento."

    Eis o dinheiro barato e fácil dos gordos é néscios capitalistas,vulgo homens de negócios. Há mais. As rendas por exemplo.Fica para mais tarde

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