quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Agora é que se vai ver o que quer a Europa


O braço de ferro entre as instituições europeias, ou seja, o governo alemão, e o governo grego está a ter desenvolvimentos rápidos: o anúncio de Varoufakis de que a Grécia aceita uma reestruturação sem haircut é uma concessão enorme e até arriscada, tendo em conta o carácter obviamente insustentável da dívida actual. O governo grego está a tentar afastar bloqueios políticos a um corte explícito na dívida, substituindo-o por um corte implícito, de menores dimensões, mas com impacto comparável no serviço da dívida. Em resumo, trata-se de ganhar tempo.

Em contrapartida, o governo grego propõe-se transpôr o esforço do ajustamento dos cortes na despesa para o aumento da receita fiscal. Em resumo, trata-se de inverter a política de austeridade e fazer o ajustamento pela receita, através do crescimento e do combate á evasão fiscal. O risco da opção do governo grego reside na dúvida sobre se um alívio da ordem dos 3%/3,5% do PIB é suficiente para implementar uma política de relançamento.

Do outro lado da mesa de negociações, a "concessão" de Juncker em relação ao fim da troika é uma mão cheia de nada. Há mais de um ano que foi apresentado no Parlamento Europeu (e entretanto aprovado por esmagadora maioria) um relatório que derrete a Troika, considerando-a uma solução sem legitimidade institucional e democrática. Prometer acabar com a dita é como ameaçar um cadáver.

A nova proposta do Syriza, sendo arriscada, tem o mérito de ser indiscutivelmente razoável. Os apoios à postura negocial do Syriza vão-se multiplicando e o isolamento político arrisca-se a mudar de lado. Isso não quer dizer que a senhora Merkel se impressione, mas esta nova fase destas negociações vai mostrar o que é que é realmente importante para as instituições europeias. Se a União Europeia insistir que a dívida é para pagar, ponto, isso significaria que a Grécia teria de avançar para uma posição de força, que poderia terminar com a sua expulsão do Euro. Ou então ceder em toda a linha, o que seria o fim do governo Syriza.

Um outro cenário é a UE aceitar as condições do governo grego mas impôr a habitual "condicionalidade" política, normalmente resumida como "política orçamental saudável" e "reformas estruturais promotoras do crescimento". São expressões bastante ambíguas mas, no jargão europês, toda a gente sabe o que isto quer dizer: cortes na despesa, privatizações, precarização do mercado de trabalho, etc. O problema é que a UE já percebeu que, com este governo, não pode contar com sub-entendidos. Para haver condicionalidade efectiva, terá de haver um memorando clarinho como a água, com as medidas todas discriminadas e prazos férreos.

Penso que será aqui que vai bater o ponto. Se o governo grego aceitar a política de austeridade, terá o seu alívio orçamental, que será completamente inútil. Por outro lado, as instituições europeias sabem que se for permitido a um Estado-membro conduzir uma política em tudo oposta às recomendações de Bruxelas, vai haver milhões de europeus a perceber que há mesmo alternativas. E pior: correm melhor do que o que há. Ou, pelo menos, menos mal. E isso é mau, mau, mau.

O resultado deste confronto será decisivo para a Europa. E para este cantinho da Europa à beira-mar plantado. Que os comentadores de direita critiquem o radicalismo do Syriza às 3ªs, 5ªs e Sábados, e as cedências do Syriza às 2ªs, 4ªs e 6ªs, é compreensível. A descredibilização deste governo é um combate de vida ou morte para a agenda da direita.

O meu maior espanto vai, pelo contrário, para os vastíssimos sectores da esquerda portuguesa que, perante o que ali se passa, se transformam em analistas políticos e espectadores. É um sintoma de provincianismo. Porque a luta dos gregos não é apenas uma luta justa noutro qualquer lugar do mundo. É a nossa luta. A mesmíssima. A nossa própria. Se eles perderem, e podem bem perder, também perdemos nós. Quem não percebe isto, não percebe nada.

12 comentários:

  1. Joaquim Tavares de Moura4 de fevereiro de 2015 às 12:57

    Será que li bem?
    "O meu maior espanto vai, pelo contrário, para os vastíssimos sectores da esquerda portuguesa que, perante o que ali se passa, se transformam em analistas políticos e espectadores."
    O que é o seu post é senão uma análise à situação grega? O facto de ter a nocão da importância do que está em jogo, deve-me impedir de analisar a situação e dar opinião? Exactamente ao contrário.
    Seria melhor que o José Gusmão lê-se o que diz o Yanis Varoufakis e não aquilo que ele gostava que ele dissesse. Evitava-lhe mais embaraços. Varoufkis já disse claramente que a Grécia está disposta a comprometer-se com objectivos para as reformas e também já disse qual o sentido das reformas que está disposto a fazer: reformar o sistema fiscal; combater a evasão fiscal e a fraude; etc.) de modo a alocar ao serviço da dívida 1,5% do PIB. Estou em crer que Merkel vai exigir mais e vai exigir o prosseguimento das privatizações, mas melhor esperar pelos próximos capítulos. Há uma coisa com que concordo, o resultado desta negociação é muito importante para Portugal e para a Irlanda. Mas a ideia que talvez mais nos ajudasse o próprio governo grego já a deixou cair. A realização da conferência para resolver o problema das dividas soberanas. Porque percebeu que ter de levar à boleia os outros só os prejudicava.

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  2. Espero e apoio um “acordo razoável” sobre a questão da dívida, entre ambas as partes (imagina-se que os burocratas europeus também não queiram perder a face)!

    Senão, só vejo duas hipóteses: ou há intransigência da UE (Alemanha) com posição de força e consequente expulsão do Euro, ou há cedência da Grécia e capitulação.
    E a haver capitulação, será só uma, mesmo que venha com contornos da tal “condicionalidade política”. Afinal, foi também pela “condicionalidade política”, que esmagou os gregos, que o povo escolheu o Syriza. Caso contrário, não valeria a pena, e o Syriza não teria razão de existir. Para feitor de protectorado, já lá estava o Samaras e acólitos.

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  3. A malta do Tempo de Recuar reza para que o Syriza faça cedências. Para o movimento costista de Ana Drago, Oliveira e Tavares, política é ceder, ceder o mais possível. Conseguem ver só nas cedências as coisas boas do Syriza (é ver a entrevista lunática de Ana Draghi ao Sol). Vivem noutro planeta e querem entregar o país ao centrão.

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  4. Claro que a questão da dívida é fulcral, obviamente que as cedências do Syriza podem ser preocupantes, mas é ou não animador ver tipos sem gravata com a camisa para fora a usarem palavras e a dizerem coisas que até então estavam relegadas para as margens do discurso e que afinal até são sensatas e até fazem sentido?
    Vitórias simbólicas? Seguramente. Mas quem é que disse que a violência simbólica é menos violenta.

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  5. Joaquim Tavares de Moura4 de fevereiro de 2015 às 18:27

    Pelos comentários anónimos (mas com marca de origem identificada) aqui deixados, já se percebeu qual é a linha de argumentação do BE e do PCP para a campanha eleitoral: O Tempo de Avançar é uma muleta do PS e os seus dirigentes querem é um lugar no governo.
    Nada de novo! A usual coragem dos processos de difamação anónima e assassinios de caracter em que tem uma larga experiência. Basta olhar para a história dessas organizações e ver como lidaram com os dissidentes. Ainda que expectável não deixa de ser um nojo.

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  6. O Syriza tem nas mãos a responsabilidade de um voto popular que foi demasiado claro para quasiquer águas mornas (ou turvas)de radicalismo verbal e social-democracia na agenda. O confronto é de classes e o Syriza ou se assume como um partido de classe e tem os gregos atrás de si ou transforma-se no maior coveiro da esperança de milhões de seres humanos, para quem esta eleição - apesar de todas as contradições internas de que o Syriza tem dado nota ao longo do seu percurso: não estamos esquecidos de que antes das eleições houve um périplo relativamente discreto do Tsipras a "tranquilizar os mercados" e a comprometer-se com a quadratura do círculo: rasgar as vestes mas ficar na zina Euro e cumprir o Tratado Orçamental. Estão na encruzilhada da História e ninguém de lá os pode tirar senão a sua vinculação a princípios, a uma ideologia e a uma opção de classe. O resto é como diz a infelicidade que nos governa: são histórias de crianças.

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  7. "É um sintoma de provincianismo"
    Achar que os povos europeus estão carentes que alguem tire uma ideia revolucionaria da cartola e lhes mostre como é que se desenvolve uma economia;se não tivesse já sido enumerado em Portugal dezenas de vezes em 1976/1983 seria uma grande novidade.
    A sua credibilidade fica um pouco desmaiada quando vem de quem tem o maior defice, maior desemprego e um pib que não é dos menores porque está inflacionado pelos milhoes e perdoes que tèm vindo dos tais tolos que agora vão ver como se faz economia a serio.

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  8. Subscrevo o que diz João no seu comentário aí em cima.

    Daí de facto não se perceber os tiros nos pés e o distanciamento face aos gregos que uma boa parte da "intelectualidade" portuguesa ( e não só) assume.

    Sejamos também claros."Os economistas funcionaram ao longo destes tempos como suporte ideológico dum processo que visou a submissão dos povos ao neoliberalismo mais abjecto.

    Era a "economia a ´serio" , economia a sério que volta a ser retomada.Já vimos com que resultados

    Entretanto cabe de facto aos gregos empurrarem o processo para a frente e forçarem o Syriza a cumprir o mandato de esperança que lhe foi outorgado.E isto faz-se não nos gabinetes de pseudo-estudiosos, nem nos apelos às cedências e aos compromssos com os alemães

    Um excrto dum texto muito lúcido de Daniel Vaz de Carvalho:

    "Dizia o poeta que “uma rosa é uma rosa, nós e que nos temos definir perante ela”. Assim é com o Syriza. Eis que uma certa esquerda de “pureza revolucionária”, por cá e noutros países da UE, desatou a criticar o Syriza por…não fazer a revolução proletária!
    Atacar o Syriza por isto é como espadeirar na água. O Syriza não é nem será um partido revolucionário, é um partido da social-democracia tradicional com traços nacionalistas, porém, é o primeiro partido no governo na UE a contestar o pensamento único neoliberal e isso bastou para abanar o mundo de embustes sobre os quais está construída a UE.
    Que espécie de “rosa” é o Syriza, o tempo dirá. Entretanto, o governo grego, com as inevitáveis contradições deste processo, encetou uma luta que tem aspetos positivos para todos os povos europeus. A reação ataca o Syriza, e não podemos juntar a nossa voz à reação."

    De

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  9. O que o BE e o PCP não conseguem ver é que há coisas que podemos ceder e outras que não podemos ceder. Por isso, é óbvio que estou com este movimento novo. O Estado só deve tratar da Justiça, da Defesa, da Segurança. O resto devemos, de preferência, entregar a privados ou parcerias, tal como o PS já vem fazendo há muito tempo. É a melhor orientação.

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  10. o problema da malta de esquerda é que não tem base social, vivem de epicaçar-se uns aos outros, ainda não souverem como dialogar, ficaram presos ao passado. O que o syrisa e o podemos ensinam é a união, a convergencia, o respeito, a firmeza frente ao colaboracionismo da direita, os tempos não são de certezas mas de olhar para frente procurando a unidade, estamos todo contra austeridade, o syrisa nos ajuda a perceber melhor o que acontece neste combate contra a austeridade, o sectarismo é um doença mas e tambem uma arrogancia. defensiva, convencer os portugueses da alternativa,clarificar, juntar forças, unir os portugueses, mesmo no estando de acordo na cor da bandeira, isso requer generosidade

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  11. o que "5 de fevereiro de 2015 às 11:59" não consegue perceber é que essa é das diferenças fundamentais entre ser ou não ser de esquerda e que por acaso foi até o caminho que nos conduziu ao lindo estado em que estamos..

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  12. o que o anónimo de 6 de fevereiro tem de perceber é q é "tempo de avançar", n podemos ter dogmas. apoio o daniel oliveira e o rui tavares porque eles sabem q o sns n pode ser a rebaldaria q é. é preciso focar o essencial, mesmo que tenha de se fazer despedimentos aqui e ali.

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