terça-feira, 24 de julho de 2012

Entretanto, por França...

A globalização tornou-se um sistema prejudicial para todos os trabalhadores, para todas as classes populares e médias do mundo inteiro; uns porque perdem o que alcançaram com tanto custo, outros porque nada ou muito pouco ganham (...) o comércio livre é a guerra de todos contra todos (...) o proteccionismo europeu, simultaneamente ecológico e social, é o keynesianismo do século XXI, uma forma política realista, justa e eficaz de organizar a economia de mercado mundial.

Excertos do pequeno livro-manifesto lançado por Arnaud Montebourg aquando da sua candidatura nas primárias socialistas francesas, onde foi o terceiro candidato mais votado. A desglobalização, um proteccionismo na escala certa, ambiental e socialmente consciente, e que não se confunde com autarcia, é uma das ideias à esquerda que é preciso desenvolver: os países mais desenvolvidos têm o direito a proteger os seus arranjos sociais, laborais e ambientais e a sua base industrial e fiscal das chantagens das transnacionais e do capital financeiro, enquanto que os países subdesenvolvidos têm direito a pôr em prática, com toda a autonomia, as políticas públicas de intervenção para o desenvolvimento que hoje a OMC e tantos tratados tentam impedir. Bom, agora Montebourg é ministro da “recuperação industrial” e está a ter o seu primeiro e bem duro teste com o anúncio recente de milhares de despedimentos na Peugeot, símbolo da desindustrialização da França, muito acentuada pelo euro e por uma crise que tem gerado uma sangria de empregos industriais. Assumindo o projecto de dizer a verdade ao poder, Jacques Sapir, um dos principais teóricos da desglobalização, lembra ao governante Montebourg o que há a fazer se quiser permanecer fiel ao espírito do candidato Montebourg: entrar pelo gabinete de Hollande e dizer-lhe que sem proteccionismo selectivo e política cambial não vamos lá. Se a linha de Montebourg for derrotada, e tudo está feito para que o seja se não houver forte pressão social e política de baixo, capaz de contrariar a que vem de cima, a Frente Nacional certamente que saberá monopolizar o cada vez mais popular discurso proteccionista, dando-lhe o cunho xenófobo e regressivo que alguns à esquerda estranhamente julgam que é indissociável de uma palavra na realidade a conquistar e a usar sem medos nem hesitações pelos que estão na margem certa.

4 comentários:

  1. é de facto um dilema terrível

    por um lado o proteccionismo nos países desenvolvidos condena milhões à pobreza nos países menos desenvolviods

    por outro lado, sem esse proteccioniusmo é todo um modelo civlizacional que desaba

    ResponderEliminar
  2. declaração de interesses:não sou, nem nunca fui comunista ou socialista. nos sentidos ortodoxos, pelo menos.

    mas por vezes lembro-me, e talvez seja bom não o esquecer, que o manifesto do marx expunha claramente que o proletariado não tem nacionalidade. o seu problema não é nacional nem é resolvido por ser tornado nacional. o problema é uma relação de forças totalmente desequilibrada.

    e, na verdade, não vejo porque movimentos de expansão de um todo político - no caso, europeu - não possam ser acompanhados de movimentos de atomização governativa - no caso, regiões.

    parece-me, aliás, bastante óbvio que assim deveria ser.

    ResponderEliminar
  3. É muito interessante este conceito de desglobalização na dupla vertente ambiental e social. A esquerda mantém-se aprisionada nos seus pruridos contra os nacionalismos e deixa o campo livre ao "internacionalismo" capitalista que nos conduz ao inferno.

    ResponderEliminar
  4. não me parece que A Esquerda se mantenha aprisionada. aliás, este post não vem Da Direita e aponta mesmo a saída nacional - este post talvez não, mas o joão.

    em todo o caso, o que se poderia discutir era formas alternativas de articular um governo de proximidade com o máximo de abertura mundial - e isto não implica ceder ao off-shore ou à deslocalização de empresas, não implica a desregulamentação por parte do estado, por exemplo (e não, não é incongruência. o estado antes de ser nação, foi, pelo menos, cidade).

    por isso, embora concorde com uma leitura ambiental e social antiglobalização, se quiser (e não anti-internacionalista) não é por via do regresso à nação que ele me convence.

    e mais, e não é por via ortodoxa por uma razão: porque o próprio internacionalismo seria apenas um colocar em contacto os nacionalismos. inter - nacionalismo. e é também nesses estados-nação que o desequilíbrio de forças - veja-se portugal - está já sedimentado.

    que os mecanismos económicos ou financeiros de combate À crise ou que a soberania nacional fossem recuperados, não duvido. mas soberania de quem? a mim cheira-me que o primeiro salário a ser cortado continuava a ser o meu.

    ResponderEliminar