segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O problema da esquerda


Na Europa, o descalabro das políticas concebidas e aplicadas pela direita nos últimos trinta anos, previsto e denunciado pela esquerda, está a ser capitalizado pela mesma direita e mesmo por uma outra (extrema) de má memória. Por que é que a esquerda europeia não tem sido capaz de convencer e mobilizar?

Não me parece ser preciso ir muito longe para encontrar o eixo fundamental da resposta.

O problema da esquerda europeia é a descoincidência entre os espaços de integração económica e os espaços de governação política. Os processos de integração europeia e de integração da Europa na economia global, sobretudo depois de Maastricht, foram capturados pelos sectores exportadores e pela finança do centro europeu, que mais tinham a ganhar com a estabilidade cambial da moeda única, com a liberdade de movimento de capitais e com a abertura aos (e dos) mercados mundiais de bens e serviços.

Dizer que a estes sectores convém a desregulação ou a desgovernação não é exacto. O que antes lhes convém é uma regulação assimétrica que por um lado remova todos os obstáculos e atritos à “livre circulação” de capitais, bens e serviços e, por outro, crie vazios em áreas cruciais como as políticas sociais e fiscais. Convém-lhes construir auto-estradas onde só podem circular veículos de alta velocidade (proibindo portanto todos os outros) sem que exista um código da estrada que limite o espaço para manobras. Daí a imagem da União Europeia, detalhada à minúcia em certos tipos de regulamentos e escandalosamente omissa noutros.

O problema para esquerda que daqui resulta é duplo. Por um lado a margem de liberdade dos Estados nacionais reduziu-se nos domínios de política onde formalmente ainda existe soberania, por outro lado, as alternativas viáveis de política exigem decisões a um nível de governação (a União) que transcende o espaço de debate e escolha democrática (que continua a ser nacional). Dois exemplos: (a) um país decidido a taxar o capital é coagido a esperar por todos os outros para minorar o risco e ameaça de fuga de capitais; (b) a superação da crise das finanças públicas só poderá passar pela intervenção do BCE no mercado primário da dívida, como muitos propõem nas presentes condições, se forem tomadas decisões históricas a nível da União.

As propostas da esquerda por muito sensatas que sejam aparecem assim ao público como irrealizáveis: dependem de decisões que dificilmente cada governo pode tomar isoladamente e pressupõe uma coordenação a 27 (pelo menos) que todos sabem ser difícil de conseguir.

O problema da esquerda é portanto difícil de ultrapassar. A mudança política ao nível de governação de que dependem as decisões que realmente importam exige uma mudança do pessoal político e da ideologia dentro dos partidos, na composição partidária dos diversos parlamentos europeus. Exige também a emergência de actores políticos de esquerda à escala europeia, acções de mobilização e proposta política a essa escala.

Alguma coisa está acontecer nesta frente – veja-se a recente jornada europeia de protesto sindical.

Mas entretanto, o problema da esquerda torna-se ainda maior quando alguns sectores da esquerda (por exemplo, Mário Soares) se enrolam entre críticas às elites europeias e apoios activos ou passivos aos governos que executam as suas políticas.

14 comentários:

  1. E que tal uma esquerda que, sem deixar de afirmar o que devia ser a política europeia, se dedicasse a propor políticas locais (isto é, ao nível nacional) que, dentro dos condicionalismos actuais, sirvam efectivamente aqueles que mais precisam?

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  2. Não deixa de ser estranho que as críticas de Fernando Nobre ao PEC III tenham sido caladas:
    “Temos de repensar o país. Travar de uma vez por todas as grandes obras públicas, reestruturar o aparelho de estado, ponderar o fim de muitos institutos, direcções-gerais e fundações. Questionar o investimento que continuamos a fazer com a Defesa, reequacionar o número de Câmaras Municipais, as parcerias público-privadas e a política fiscal em relação aos Bancos que continuam a apresentar impensáveis lucros.
    Estou contra o congelamento do salário mínimo, o congelamento das pensões, o fim ou a diminuição do abono de família, a redução de salários e a diminuição dos subsídios e apoios sociais.“

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  3. Confesso que é abismado e surpreendido que leio o primeiro parágrafo deste «post» de J.M. Castro Caldas (sublinhado meu):«Na Europa, o descalabro das políticas concebidas e APLICADAS PELA DIREITA NOS ÚLTIMOS TRINTA ANOS, previsto e denunciado pela esquerda, está a ser capitalizado pela mesma direita e mesmo por uma outra (extrema) de má memória.».

    Acontece apenas que, neste ponto e ainda num ou noutro, vejo J.M. Castro Caldas a partir de falsos pressupostos de facto muito semelhantes aos expostos num artigo de Vital Moreira que, até com a concordância posterior de João Rodrigues, procurei desmontar aqui em
    http://tempodascerejas.blogspot.com/2010/09/agora-nao-me-lembro.html .

    Em suma, até parece que, por exemplo, na época da criação da moeda única, os socialistas não governavam 11 dos 15 países que então integravam a U.E (nessa altura talvez com outro nome).

    Mas mesmo que assim não fosse, volto agradecer que quem saiba me informe caridosamente quais foram, em termos de integração europeia, as radicais divergências e temíveis confrontos que opuseram o Partido Socialista Europeu ao Partido Popular Europeu.

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  4. O Vítor Dias tem factualmente razão e eu devia ter sido mais claro. As políticas de direita foram também aplicadas pela terceira-via da social-democracia que eu já me desabituei a considerar de “esquerda”. A arquitectura europeia foi desenhada com os mesmos cúmplices e ideias de direita.

    Não é aqui que está alguma divergência... mas dada a severidade do comentário do VD, imagino que deva haver outra, possivelmente mais interessante.

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  5. Nenhuma severidade, J.M. Castro Caldas.

    De qualquer modo, não sabia que já fazia o que eu ainda não faço (em algumas matérias, noutras não há que ter contemplações) que é incluir, sem nenhuma nuance ou «distinguo», os PS na «direita», ponto final parágrafo.

    O meu temor foi que os leitores não estejam preparados para essa forma de classificar e lessem o seu «post» pensando que sua «esquerda», quanto mais não seja por facilidade de expressão, incluia os PS's.

    Mas agora está tudo claro, haja Deus.

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  6. Vitor Dias, pelos vistos tenho de ter mais tento na lingua: PS de direita ponto final não é o que penso.

    Penso, como alguma gente de esquerda no PS, que a terceira-via social democrata é de direita.

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  7. “Por que é que a esquerda europeia não tem sido capaz de convencer e mobilizar?”
    A esquerda tem políticas de esquerda?
    O problema da esquerda europeia é a descoincidência… governação política. (??)
    “Os processos de integração europeia … foram capturados pelos sectores exportadores e pela finança do centro europeu”
    Os processos foram capturados?
    ah!ah!
    “…mais tinham a ganhar? ”
    ah!ah!
    Dizer que a estes sectores convém a desregulação ou a desgovernação não é exacto”. ah!ah!

    “Convém-lhes construir auto-estradas …escandalosamente omissa noutros.”
    Finalmente, alguma coisa com pés e cabeça! ufa!!

    “O problema para esquerda que daqui resulta é duplo… (que continua a ser nacional). "
    Em suma, traduzido por miúdos, a esquerda ou não existe ou está moribunda ou passou-se para o lado dos eurocratas, como por exemplo, Vitorino, Sócrates, etc.
    “se forem tomadas decisões históricas a nível da União. ”
    O homem está outra vez a delirar!!
    “O problema da esquerda é portanto difícil de ultrapassar.”
    muito difícil, sobretudo, enquanto houver ideólogos de esquerda como tu!!
    “A mudança política … a essa escala”.
    (conversa da treta)
    “Mas entretanto, o problema da esquerda torna-se ainda maior … políticas. ”
    (tu, também, Soares?)

    SANTA PACIENCIA!

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  8. Alguém consegue perceber o comentário do anónimo?

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  9. É possível que o anónimo se refira a este SATU e aos problemas por ele causados.

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  10. Acho que CC fez um esforço para se colocar numa posição de autonomia num assunto em que tem a dependência da sua legitima opção.Mas, mesmo querendo assumir uma posição de notário face às classificações que faz, dificultou uma leitura da Esquerda e da sua "incapacidade de se afirmar politicamente nesta Europa à deriva", pois acredito que essa explicação, sendo complicada, tem duas respostas simples: os preconceitos que dominam as mentes de muito dos seus actores, que não fazem um esforço no sentido de dar eficácia governativa às suas propostas, e fecha portas a entendimentos por essa mesma razão; mas também porque não tem ao seu dispôr os meios de divulgação de massas que permita a divulgação das suas propostas, a sua seriedade, a sua tecnicidade, a sua aplicabilidade. E sem isso, se apenas com a "condescendência dos órgãos de comunicação de massas da situação", a coisa torna-se complicada. Mas cabe aos responsáveis da Esquerda( a Esquerda quero-a múltipla, mas com número de telefone disponivel)perceberem que essa limitação, para além de outras, claro, tem um caracter quase determinante no quadro actual. As circunstâncias, "meus amigos", essa esfera que roda sobre si mesma!

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  11. Caro José Castro Caldas,
    Com todo o apreço que tenho por ti no plano pessoal, e toda a atenção com que te sigo no plano político, tenho de te dizer sinceramente o que segue. Apesar de conter algumas ideias justas, este teu post, combinado com as respostas que dás a alguns comentadores, mostra com transparência a embrulhada daquelas partes da esquerda que nunca esquecem os velhos ódios ao PS. Mesmo que andem com as palavras para trás e para a frente,não conseguem esconder o preconceito de serem os juízes de quem é quem não é de esquerda. Que vos faça bom proveito, se acham que esse é o caminho. Mais essencial, contudo, é que mostras aqui como continuas preso à incapacidade de pensar a UE sem um preconceito anti-UE. Há imensa coisa que só se pode fazer ao nível da UE e que a UE não tem feito. Tens razão. E se não existisse a UE, se fosse cada país por si, como seria? Em que "grupo regional" estaria isso a ser feito?
    O "manifesto dos economistas consternados", que divulguei lá na minha tasca, é um bom exemplo de como se pode pensar a alternativa sem resvalar para os clichés anti-europeus do costume.
    Abraço.

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  12. Caro Porfírio,
    Tenho dificuldade em compreender como se pode estar de acordo com o Manifesto dos Economistas Aterrados e ao mesmo tempo não ver na actual arquitectura da EU um desastre. Que diabo eles defendem uma refundação da UE. Também eu. O anti-UE é uma etiqueta. O anti-PS também. Mas convenhamos… a terceira-via é (foi?) mesmo de direita, ou não? De qualquer modo tens razão num ponto: o desporto de classificar ao milímetro o que é de direita e de esquerda não é dos mais interessantes. Até porque as opiniões e posições evoluem.
    Um abraço

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  13. Caro JCC,
    O Manifesto dos Economistas Consternados critica muito, propõe alternativas... dentro da UE. Assumindo que a UE (os espaços regionais alargados) é condição necessária para fazer alguma coisa diferente. É assumir isso, em vez da velha narrativa da malvada UE, que faz falta. A esquerda que andou tantos anos a maldizer a UE ajudou muito a que as suas propostas andassem demasiado fora do debate. O que é natural, já que esse discurso fazia parte do mesmo pacote que incluía a reivindicação de "expulsar" da esquerda os sectores menos anti-capitalistas.

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