Estamos de volta aos aumentos das taxas de juro para combater um choque de oferta. Isso interromperá a guerra contra o Irão? Reabrirá o Estreito de Ormuz? Os custos de financiamento mais elevados ajudarão a expandir as energias renováveis? Não. Mas há o risco de levar os meios necessários à vida e as democracias ao limite do colapso.
É preciso insistir, lembrando, pore exemplo, o que Vera Ferreira aqui escreveu, em 2023, sobre um banco central com uma política monetária que não é verde:
“Não se espera, obviamente, que o
BCE resolva a crise climática, mas sem um Banco Central alinhado com o avultado
investimento público e privado no sistema energético, a transição dificilmente
ocorrerá. Ao elevar os custos de investimento, através das suas medidas, esta
instituição influencia, necessariamente, as opções de política climática e
energética. Com efeito, as energias renováveis exigem investimentos iniciais
substanciais e são sensíveis à deterioração das condições de financiamento e ao
aumento das taxas de juro.
Como exemplificam Philipp
Heimberger e Lea Steininger, enquanto uma central termoelétrica alimentada a
gás natural pode utilizar as suas receitas presentes para pagar novos
combustíveis, um projeto de energias renováveis de grande escala, como um
parque eólico offshore, ou até mesmo uma central de hidrogénio verde ou uma
mega central fotovoltaica, utiliza as receitas presentes para pagar o serviço
da dívida contraída para despesas de capital. Deste modo, quanto mais elevado
for o custo do capital, menos atrativo é o investimento neste tipo de
projetos.
Por conseguinte, taxas de juro
elevadas poderão impedir investimentos urgentes para atenuar a crise climática
e realizar a transição energética. Além disso, a concomitante compressão
salarial impede qualquer tipo de justiça social ao longo deste processo,
esvaziando o slogan da Comissão Europeia de “não deixar ninguém para trás”. Não
esqueçamos: fim do mundo, fim do mês, a mesma luta.
As políticas climáticas e
energéticas deverão ser conduzidas à escala nacional, por representantes
políticos democraticamente eleitos. Os investimentos têm de ser impulsionados
pelo Estado através de instrumentos de planeamento robustos e investimento
público em energias renováveis, na modernização da rede elétrica, na
eletrificação da ferrovia e dos transportes públicos rodoviários, ou ainda na
reabilitação e renovação energética do edificado. Isto exige um Banco Central
subordinado às prioridades orçamentais democráticas, não impondo restrições
financeiras.”

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