A “Hiperpolítica”, de Anton Jäger, está a ter um tremendo sucesso nalguns setores da esquerda portuguesa. É, de facto, um ensaio notável e uma leitura importante para melhorar a discussão entre correntes que se dividem por dificuldade de uma análise concreta comum. A esquerda não precisa tanto de ser unida, como precisa de ser, antes de mais, esquerda e sem um quadro de análise concreto, realista, honesto, dificilmente tal se verificará.
A sua leitura trouxe-me, porém, questões subsidiárias: restos de uma ressaca que se transformou numa inquietação nostálgica; tentativa de desfecho de um passado marcado pela dor-fantasma do crescimento ou do turismo (de classe?) nas dores dos outros. Seja como for, a cultura dessa longa década de noventa, onde Jäger acomoda parte significativa da fase da pós-política, deverá ou não refletir-se na cultura popular?
Enquanto me questiono sobre isto, vou ouvindo a voz de Layne Staley nos auscultadores a cantar “One who doesn't care/ Is one who shouldn't be/ I've tried to hide myself from what is wrong for me”. A imagem da minha cidade com a alegria a desbotar, desvelando nos rostos uma profunda depressão que se arrastaria até à tragédia, garroteando as veias de uma sociedade sôfrega por todos os consumos e atirando cada um para uma reconstrução individual, essa imagem, dizia, é ferida aberta que se prolonga, justamente, porque continua a precisar de uma compreensão melhor, que nos livre da culpa, do remorso e nos permita transformar tudo isto, todo este equívoco que fomos incapazes de resolver juntos.
Talvez estivesse já tudo na poesia de Staley, a abrir a mais longa das décadas, quando se alastrou com o império, anunciando a desertificação do espaço comum: “Dust rise right on over my time/ Empty fossil of the new scene/ I feel so alone/ Gonna end up a big ol' pile of them bones”. Danos colaterais - eles e nós, os que ficámos.
Como escreve bem. É realmente imperdível este breve ensaio de interpretação histórica na sombra do fim da história, de 1989, trabalhando por ordem cronológica as categorias de pós-política, antipolítica e hiperpolítica, embora não possa falar da qualidade da tradução.
Há, de facto, um abismo entre aquilo que sabemos e aquilo que temos podido coletivamente transformar, resultante da crise da ação política organizada dos subalternos, de resto já diagnosticada a partir da filosofia e não só. Este livro contém também uma útil incursão na sociologia política. Talvez o aborde no artigo de maio no AbrilAbril.

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