terça-feira, 19 de abril de 2022

Relações de camaradagem face à Guerra da Ucrânia

Tomo como camaradas aqueles com quem partilho aspirações de transformação social e ao lado dos quais me coloco para os atingir, numa ação que se ergue sobre relações de confiança mútua. 

As relações de camaradagem sobrevivem ao dissenso. Dentro de um mesmo quadro de valores geral, é necessário existir um espectro variado de opiniões para garantir a diversidade e a permeabilidade social de uma organização, elemento essencial para a interpretação não dogmática da realidade. 

São meus camaradas todos aqueles que partilham o socialismo como elemento aspiracional, enquanto entendimento de que só a democracia na esfera da produção concretiza a liberdade desejável. Temos diferenças sobre os detalhes do fim desejado e da estratégia para o atingir, mas partilhamos esse fim geral. 

É por isso que as posições tomadas pelos partidos portugueses em relação à Guerra da Ucrânia não beliscam as minhas relações de camaradagem. Sinto-me mais próximo da posição do Bloco, que condena explicitamente a invasão e vê Putin como principal responsável pela Guerra, sem deixar de sublinhar o contexto de escalada territorial da NATO. Mas não me choca a posição do PCP. O PCP condena a guerra, mas integra a responsabilidade da invasão numa cadeia causal mais longa, onde coloca as ações prévias da NATO como o fator determinante. Discordo, não considero que seja uma análise correta, mas é uma análise legítima.  

O que quebra em definitivo relações de camaradagem são a mentira e a deslealdade. E não têm faltado no debate sobre esta guerra, provindas dos intervenientes mais improváveis. 

São numerosas as pessoas que tomávamos como de esquerda e leais no debate a mentir com fins de perseguição política interna. Há um chorrilho de mentiras e insinuações. Dizem que o PCP apoia Putin, o que é apenas falso. Acusam quem coloca em contexto e avalia o processo histórico além da dicotomia bem/mal de estar secretamente a torcer pelo sucesso da invasão russa. Usam e abusam do processo de intenção. Lançam lama sem critério sobre pessoas por quem deveriam ter respeito no debate. 

O mais recente exemplo chega-nos pela pena de Rui Bebiano. Não obstante ser um intelectual público que se reclama da área da esquerda, tornou-se um dos mais ativos membros desta campanha de deturpação. Além de incorrer em todos os que refiro acima, junta-lhe um estilo ainda mais rasteiro e infantil: o de fazer críticas dirigidas sem mencionar o nome do visado. Tornou-se um especialista em indiretas nas redes sociais. 

O seu mais recente recado sem nome (aqui), mas obviamente dirigido ao historiador Manuel Loff, lavra em mais uma mentira: que esse historiador teria apelado à abstenção na segunda volta das eleições presidenciais. Na sua crónica (aqui), Manuel Loff apenas questiona, em tom de assentimento, se "É difícil perceber por que muitos franceses defensores das liberdades, da democracia e da dignidade social preferem abster-se?". Isto é, defende que é compreensível a reticência, não afirma que é a favor da abstenção e, muito menos, que em situação análoga se absteria. 

Para ilustrar o vício lógico: se alguém declarar compreender os problemas que levam alguém ao suicídio, não significa que esteja a apelar ao ato. Nem tão pouco significa que se suicidaria em circunstâncias semelhantes. Quem lança esta calúnia identifica o vício lógico em que lavra a sua conclusão? Claro que sim. Mas os princípios destes grandes defensores da democracia liberal há muito que se eclipsaram.

Não há camaradagem que subsista para com  usurpadores conscientes da opinião daqueles que deveriam tomar por seus companheiros.  Estão fora da esquerda grande que ambicionamos construir.

 

4 comentários:

  1. Concordo. É difícil no meio de tanta emoção ser-se racional. A defesa do socialismo tem de ser a bússola. A direita (lato senso) hoje ataca o PCP, amanhã o BE, depois o PS e voilá!

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  2. Os tempos, para todos os que aspiram verdadeiramente a um outro mundo, são de resistência e nervos de aço. São também, tempos de enorme clarificação. Não espanta por isso que Bebiano ou Flunser Pimentel estejam, mais uma vez, do mesmo lado da barricada: aquele onde sabem, que apesar de todos os vendavais, sempre haverá um tecto que os abrigue. Os outros? Paciência, que se há-de fazer? Já estão habituados, de qualquer modo. Por conseguinte, que se enterrem de vez as esperanças em todas as esquerdinhas de trazer por casa, que bem vistas as coisas e na essência, não passam verdadeiramente de papagaios e colaboracionistas de um sistema que não se atrevem a por em causa, mas para o qual gostariam de trazer alguns ornamentos e ramalhetes de flores; tudo muito fresco, tudo muito contemporâneo, tudo muito europeista. Pena é o cheiro a bafio.

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  3. Para perceber a posição do PCP nesta matéria, convém começar por ler a Nota do Gabinete de Imprensa do PCP ( https://www.pcp.pt/sobre-recentes-desenvolvimentos-no-leste-da-europa ),
    emitida em 22 de Fevereiro de 2022, ou seja, dois dias ANTES da invasão da Ucrânia pela Rússia e um dia DEPOIS do reconhecimento por Putin - a pedido da Duma, câmara baixa do parlamento russo - das duas autoproclamadas "repúblicas populares" no Donbass ucraniano como estados independentes:

    1."A actual situação e seus desenvolvimentos recentes são inseparáveis de décadas de política de tensão e crescente confrontação dos EUA e da NATO contra a Federação Russa, nos planos militar, económico e político, em que avulta o contínuo alargamento da NATO e o sistemático avanço da instalação de meios e contingentes militares deste bloco político-militar cada vez mais próximo das fronteiras da Federação Russa".

    2. "A situação na Ucrânia não pode ainda deixar de ser dissociada do golpe de Estado de 2014, promovido pelos EUA, a NATO e a UE, protagonizado por grupos fascistas, e que levou à imposição de um regime xenófobo e belicista, cuja violenta acção é responsável pelo agravamento de fracturas e divisões, pela discriminação e negação de direitos fundamentais e de cidadania da população, e pela deflagração da guerra naquele País".

    3. "Quando alguns demonstram agora a sua preocupação com os acordos de Minsk, assinados há sete anos, é importante ter presente que o regime ucraniano não só nunca os cumpriu, inclusivé de forma assumida, como impediu a concretização de uma solução política para o conflito no Donbass, sendo responsável por constantes violações do cessar-fogo, por sucessivas provocações e por uma massiva concentração de forças militares junto à linha de demarcação – acção que se incrementou significativamente nas últimas semanas –, ameaçando lançar uma acção militar em larga escala nessa região. A decisão agora assumida pela Federação Russa [Reconhecimento da independência das duas "repúblicas populares"] não pode ser olhada à margem desta conjuntura e dos seus desenvolvimentos".

    4. "O PCP reafirma a necessidade do desenvolvimento de iniciativas que contribuam para o desanuviamento e que privilegiem um processo de diálogo com vista a uma solução pacífica para o conflito, assim como à promoção da paz e da segurança na Europa, no respeito dos princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia".

    5. "O PCP denuncia a perigosa estratégia de tensão e propaganda belicista promovida pelos EUA, a NATO e a UE, e apela ao desenvolvimento da acção em defesa da solução pacífica dos conflitos internacionais, pelo fim das agressões e ingerências do imperialismo, pela rejeição do alargamento da NATO e pela sua dissolução, contra a militarização da União Europeia, pelos princípios de paz e desarmamento inscritos na Constituição da República Portuguesa".

    Atendendo ao ponto 4, o PCP não podia deixar de, dias depois, condenar inequivocamente a invasão da Ucrânia pela Rússia, ficando assim esta com o papel de agressor e a Ucrânia com o papel de agredido no conflito bélico subsequente - e foi o que fez. Mas, ao condenar inequivocamente o país agressor, o PCP - atendendo aos pontos 2 e 3 - não podia deixar de continuar a condenar o regime de Kiev pós-Euromaidan pelo conflito bélico no Donbass, iniciado oito anos antes com a cumplicidade dos governantes dos países da NATO.

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  4. É necessário e urgente construir essa Esquerda grande.

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