quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Questões mais ou menos triviais


A nova suspeita de que há decisões judiciais que são compradas e vendidas é potencialmente a enésima ilustração de uma velha ideia bem actual, mas talvez trivial, de economia moral, segundo a qual para que haja uma esfera mercantil em que os preços moldam os comportamentos é absolutamente necessário que haja esferas onde os preços o não fazem, sendo recusados.

O que talvez seja menos trivial é a ideia, da tradição crítica da economia moral, enquanto área que cruza história, economia ou filosofia políticas, segunda a qual a esfera mercantil pode em certas circunstâncias políticas, típicas por exemplo da época histórica neoliberal onde o dinheiro é incensado, corroer os valores, as instituições e as práticas não-mercantis, tornando tudo tudo mais indecente e disfuncional: dos perigos da hegemonia da mentalidade de mercado, denunciados por Karl Polanyi nos anos quarenta aos riscos dos mercados em expansão não conhecerem limites morais, denunciados mais recentemente por Michael Sandel.

De resto, as sociedades mais desiguais, onde o poder do dinheiro está mais concentrado, têm uma maior propensão para corromper indivíduos e instituições, para fazer desaparecer uma necessária separação de esferas. Complementando um historiador desta tradição, em livro acabado de sair, o problema da desigualdade económica não pode ser apenas visto pelo prisma mais ou menos utilitarista da distribuição de rendimentos de baixo para cima ou de cima para baixo entre indivíduos que cuidam do seu interesse próprio definido de forma estreita. Também tem de ser colocado no contexto dos seus efeitos numa comunidade, nos hábitos, e logo no carácter, favorecidos. Nada é neutro no capitalismo.

14 comentários:

  1. Nunca o ataque aos detentores de capital é feito em termos de uma qualquer ética que a par do reconhecimento da legitima posse da propriedade imponha comportamentos socialmente úteis e tidos por meritórios.
    Nunca a mobilização dos opositores ao capitalismo prescinde de realçar a 'imoralidade' associada à detenção de capital, e a par disso se propagandeiam os privilégios e o domínio daí derivados, que haveriam de ser extintos ou que a outros deveriam ser atribuídos.

    Nada mais se requere para que se promova a presunção de que a sociedade vive num regime em que a ética está ausente.

    Nada mais se requere para que se pressuponha que a ética é exclusiva dos desapossados e imunes a ambições de riqueza pessoal.

    Nada mais se requere para que as ambições se libertem de peias éticas.


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  2. Um excelente post, mais um , de João Rodrigues.

    Parabéns

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  3. Não é por nada que este texto faça saltar como uma mola um comentador de nickname Jose.

    Não se sabe se pela vetustez ou se por deterioração de faculdades mais nobres, é penosa todavia a falta de memória deste sujeito que agora nos vem pregar tretas sobre a "moralidade" do Capital. Ou sobre a presença da Ética. Ou sobre o mais das outras tretas de que agora se mostra tão escrupulosamente lastimoso.

    O sujeito que agora nos vem impingir tais tretas, tentando tapar a denúncia duma sociedade venal e podre, é o mesmo que, perante a denúncia da corrupção activa praticada pelo Goldman-Sachs, das suas ilegalidades, das suas pulhices, escreveu ainda há dias a seguinte, naquele tom desabrido de quem vê denunciada a trampa do Capital:

    "A G&S, que não é a Santa Casa e que tem por missão fazer lucros".

    G&S é o nickname ternurento dado à Goldman-sachs. O choradinho em torno destes crápulas e do seu direito inquestionável ao lucro, contrasta vivamente com duas coisas. Com o ódio desbragado que manifesta por quem vive apenas do seu trabalho. E com estas tretas idiotas sobre Ética e Moral que aqui agora debita.

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  4. Nunca o ataque aos detentores do Capital é feito em termos de qualquer ética?

    Não saberá ler o que está escrito? Embora aqui a questão ultrapasse em muito a questão ética e vá muito mais fundo. Basta ler o texto de JR

    E lembrar Marx Marx, que no seu prefácio da Contribuição para a Crítica da Economia Política, defendeu que, sobre a estrutura económica da sociedade, a base concreta, "se eleva uma superstrutura jurídica e política à qual correspondem determinadas formas de consciência social"

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  5. Mas vejamos o que se esconde por detrás de tal "ética".

    Parece que vai de par com o reconhecimento da, e cita-se, "legítima posse da propriedade".

    Aqui começamos a ver que a porca torce o rabo. Não só porque o que se questiona não é a "propriedade" no geral mas sim a propriedade dos grandes meios de produção. Como também porque de facto se questiona as origens de tal "propriedade", que como se sabe se tende a concentrar e a acumular

    Pelo que não adianta estas tentativas um pouco idiotas de a fazer passar ( à "propriedade") por virgem impoluta e legítima.

    Um exemplo concreto , embora seja desagradável individualizar apenas alguém, já que é o sistema baseado no lucro, só o lucro e nada mais do que o lucro que gera coisas assim:

    Ricardo Salgado era detentor duma vastíssima fortuna. Os seus rendimentos eram o que se sabe. A sua posição de proprietário "legitimo" era apregoado por todos os media, por todos os que o rodeavam, por toda a tralha neoliberal que oincensava e proclamava o seu direito de proprietário do país.

    O próprio Jose lhe dedicava algumas odes a tal "legítimo proprietário" e a tal legítima propriedade.

    Foi, é , o que se vê

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  6. Mas há mais.

    Parece que a "ética" assim proclamada vem imbuída de "comportamentos socialmente úteis e tidos por meritórios"

    A hipocrisia de tais palavras ultrapassa o admissível. Por outro lado a noção de "socialmente útil" varia na exacta medida dos interesses de quem o profere.

    Quando jose defendia os corruptores assim desta forma expedita:

    "É estúpido ignorar que se há corruptores é porque há corruptos, e pelo que sei são os corruptos que promovem a corrupção e não o contrário."

    Estava a defender o "comportamento socialmente útil" dos ditos corruptores?

    Ou estava a tê-los por meritórios?

    Assim quando

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  7. A questão da validação da posse e da concentração da riqueza nas mãos de uma imensa minoria não passa por uma imbecil "moralidade" ( ou "imoralidade" ), que como se sabe faz parte daquela superstrutura à qual correspondem determinadas formas de consciência social.

    Essa conversa da treta pode passar nos sítios das caridadezinhas balofas com que se tenta esconder um status quo iníquo e degradante.

    Mas esta conversa da treta já não passa perante a realidade das coisas. Os privilégios dos esclavagistas foram há muito contestados e postos em causa. O domínio da humanidade pelos Goldman-sachs da ordem ou pelos J.Morgan da desordem devem ser mesmo postos em causa e os seus privilégios contestados.

    Pese esta espécie de missa cantabile em prol da manutenção deste modelo de sociedade de trampa em que vivemos

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  8. Não adianta esta tentativa um pouco idiota ( é o termo ) de Jose virar o bico ao prego, neste estilo de linguagem esdrúxula e com cheiro a sacristia ( relevem-se os erros do seu português):

    "Nada mais se "requere" para que se promova a presunção de que a sociedade vive num regime em que a ética está ausente".

    Não. Não vale a pena esta linguagem para legitimar este tipo de sociedade, com base no disparate duma falácia medíocre. A existência de princípios éticos (seja lá o que isso seja, quando aplicado a uma sociedade) não legitima nem a sociedade nem a podridão à sua volta.


    "Nada mais se "requere" para que se pressuponha que a ética é exclusiva dos desapossados e imunes a ambições de riqueza pessoal"
    Não. Não vale a pena este quase choradinho a suplicar pelo direito a uma ética que nunca é da exclusividade de ninguém.

    Nem valem a pena estes juízos sobre a "imunidade", mais as "ambições pessoais". Juízos de valor deste tipo são apenas pretextos para se fugir ao que se discute, com base em queixumes individuais que se querem universalizar.


    Estas generalizações apenas tentam justificar uma sociedade predadora e desumana. Escondida atrás de peias e de éticas tão confrangedoras como treteiras


    "Nada mais se requer"

    Já percebemos de facto

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  9. Um exemplo da ética aplicada aos detentores de capital :

    "Banca: Comissões bancárias tiram cinco milhões de euros por dia das contas dos clientes"

    É a justa ética do direito ao lucro sobre todas as coisas que merecidamente os banqueiros e a banca merecem

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  10. Falam-me da ética numa sociedade capitalista que não está nem perto de o deixar de ser.

    Cuidem de não resvalar para a vossa tão desprezada caridadezinha.

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  11. "Falam-me da ética numa sociedade capitalista que não está nem perto de o deixar de ser."

    Uma reflexão profuuuundaaaaa.

    Assim do género da localização profunda de certos antros bloguistas, em que proliferam os moralistas neoliberais a defender os offshores proxenetas. Ou quiçá mesmo os Goldman-Sachs, perdão G&S.

    Agora alguém diga aí que esta história da ética não tem nada a ver com o estar ou não perto, de deixar de ser ou não deixar de ser.

    Mas isto toda a gente sabe. É apenas folclore da treta para abafar o que se denuncia

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  12. Quanto ao "Cuidem de não resvalar para a vossa tão desprezada caridadezinha"

    Não se sabe se isto é apenas uma idiotice ou uma ameaça idiota.

    Mas de qualquer forma já passaram mais de 40 anos da queda do seu regime



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  13. Pôr esquerdalhada a falar de ética é uma contradição nos seus termos.

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  14. Pois é.

    A contradição, Jose,a ética e a esquerdalhada.

    Isto é uma marca profunda de impotência. À Goldman-Sachs, perdão, à G&S. Ou seja, Jose não consegue mostrar-se socialmente útil e tido por meritório.

    Nem "requere" mais nada. Apenas isto, depois do "não está nem perto de o deixar de ser".

    Para ser coerente com o seu vocabulário, falta apenas a referência àquela parte do corpo, localizada na face anterior do tórax, com que vai adornando os seus comentários

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