segunda-feira, 3 de julho de 2017

A austeridade já acabou?


Steve Keen explica o básico e arrasa a teórica económica dos Tratados

O povo português tem sido levado a pensar que a palavra "austeridade" significa cortes nos salários dos funcionários públicos, nas pensões, nos serviços de saúde e educação e na redução do investimento público para que se obtenha um défice no orçamento que cumpra as metas prometidas a Bruxelas. Hoje, há quem pense que a austeridade acabou.

O que as TV e os analistas de serviço não dizem ao povo português é que, numa situação de desemprego (ainda por cima de enorme dimensão), a boa teoria económica ensina que o governo deve aumentar a despesa pública socialmente útil (em investimento e mesmo despesa corrente onde há carências) porque essa é a única forma de relançar a economia. Se os privados estão a poupar para pagar dívidas ou por receio do futuro, quem mais pode tirar a economia do buraco? Portanto, 'austeridade' tem um sentido mais amplo: significa reduzir o défice orçamental, retirando dinheiro da economia, no preciso momento em que esta mais precisa dele. Chama-se a isto política orçamental "pró-cíclica" porque agrava a recessão, em vez de a contrariar. É isto que está nos Tratados que temos de cumprir. A austeridade (nas suas diversas declinações) não é uma escolha do governo, é um modelo de política económica imposto pelo ordoliberalismo alemão.

Dir-me-ão que devem ser as exportações a puxar pela economia porque, caso contrário, boa parte da procura interna escoa-se para o exterior pelas importações. Claro, sobretudo a classe média-alta, gasta o que pode em produtos importados e viagens ao estrangeiro. É a liberalização comercial que temos, um regalo para os "cidadãos do mundo", numa zona euro "globalizada". Mas não era isto que o Tratado de Roma propunha. Porém, não só as exportações representam bem menos de metade da economia, mas também não podem crescer muito mais quando os outros países da zona euro estão sob pressão para reduzir a sua procura interna que comprará as nossas exportações. De facto, não podem crescer todos pelas exportações apesar de ser essa a orientação da UE. Esta política é um absurdo.

Porém, pertencendo à zona euro, Portugal só pode fazer isto que Centeno e Costa estão a fazer, e com resultados aceitáveis. Com a tolerância do Eurogrupo (desde 2015 porque havia eleições), a pressão para mais cortes abrandou na zona euro, o que tem sido favorável às nossas exportações. O Brexit, as sucessivas eleições nos grandes países da UE, e o crescimento da extrema-direita, têm permitido a Costa e Centeno alguma margem de manobra favorável à mudança de uma espiral recessiva para uma espiral virtuosa que está longe do que o país precisa. Mesmo modesta, falta saber por quanto tempo isso será permitido.

Com as reformas que já estão a preparar - incluindo um exército europeu (na prática comandado por alemães) - e o endurecimento das reformas ditas "estruturais", após as eleições alemãs, o que vai estar em causa é o seguinte: qual é o modelo de sociedade em que os portugueses querem viver?

É a absoluta precariedade dos empregos, a redução do Estado social ao mínimo, o aumento da desigualdade que já é intolerável, o agravamento da pobreza e da miséria? É essa sociedade que queremos, contra tudo o que nos prometeram quando aderimos ao euro? Queremos uma política económica comprovadamente perversa que atira a nossa economia para a condição definitiva de periferia pobre da Europa, a parte atlântica do grande Mezzogiorno europeu onde as classes médias do norte vêm passar férias e gozar a reforma, à custa dos baixos salários de um país de serviços turísticos? Os portugueses desistiram de Portugal?

Pensar no nosso futuro e preparar o dos nossos filhos e netos é uma responsabilidade a que não podemos fugir. Entristece-me pensar que pertenço a uma classe média que viveu razoavelmente bem aproveitando o tempo do enorme endividamento da economia portuguesa e, quando chegou a hora de assumir as consequências, preferiu meter a cabeça debaixo da areia. Preferiu a cobardia dizendo que tinha medo da alternativa. Imaginem se os Capitães de Abril também tinham pensado assim?

17 comentários:

  1. "... uma classe média que viveu razoavelmente bem aproveitando o tempo do enorme endividamento da economia portuguesa ..."
    Dito de outra forma, viveu acima das suas possibilidades.

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  2. "Entristece-me pensar que pertenço a uma classe média que viveu razoavelmente bem aproveitando o tempo do enorme endividamento da economia portuguesa e, quando chegou a hora de assumir as consequências, preferiu meter a cabeça debaixo da areia. Preferiu a cobardia dizendo que tinha medo da alternativa. Imaginem se os Capitães de Abril também tinham pensado assim?"

    Muito bem.
    Eventualmente caso os Capitães de Abril tivessem pensado assim acho que:
    1) Teríamos mais pessoas de classe baixa e média baixa que teriam falecido na Guerra Colonial
    2) Portugal caso tivesse mantido as colónias provavelmente seria mais independente dos capitais financeiros globais. Seriamos produtores de petróleo
    3) Culturalmente seriamos mais isolados da cultura anglosaxonica
    4) Provavelmente os standards de vida em Angola e Moçambique seriam bem superiores aos atuais.
    5) Não sei se atualmente o standard de vida em Portugal seria melhor ou pior. Nos anos 80 e 90 certamente teria sido pior mas isso deveu-se ao endividamento. Não estando no Euro e sendo um país produtor de petróleo acredito que pelo menos a taxa de emprego seria muito superior.

    A questão é sempre a de quais os custos que a rejeição da austeridade isoladamente por parte de Portugal nos iriam criar. A opinião pública corrente ainda mal ultrapassou a teoria vigente de Portugal como o "bom aluno europeu" e que todas a diretivas europeias tinham em vista os nossos melhores interesses. O ideal seria que Portugal se conseguisse aliar aos restantes países de Sul e defender os seus interesses no palco político europeu mas infelizmente os países do Norte da Europa demonstram uma capacidade muito superior de organização e defesa dos seus interesses a nível europeu.

    O exemplo a seguir penso que será o da Irlanda e Luxemburgo. Pequenos países que conseguem retirar benefícios substanciais de fazerem parte do euro através de políticas fiscais muito competitivas.

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  3. Austeridade sempre foi uma fraude e um crime perpetrado pelas "elites" sejam nacionais como internacionais que visa a transferência de riqueza da maioria para a minoria.

    Mas a transferência de riqueza não se restringe à Europa do sul versus norte, é uma realidade do capitalismo global (neoliberalismo).

    Eu acredito que Portugal pode ser um país de elevada qualidade de vida e contribuir para o avanço da ciência, contudo, tem que haver vontade da maioria para que isso aconteça...

    Em suma, neoliberalismo vai ter que ser morto e enterrado de uma vez por todas!
    Essa do que temos que financiar os capitalistas/ oligarcas para eles serem "empreendedores" é maior patranha da história da humanidade!!

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  4. Caro Eui.

    É preciso um mínimo de. Porque colocar sequer como hipótese a possibilidade de Portugsl ter mantido as colónias ate aos dias de hoje....é duma estarrecedora irrealidade.

    Que leva a que não se possa levar mais a sério o que escreve. Tanto mais que nos deparamos a seguir com variações sobre o petróleo.

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  5. Ora se a tal classe média teve esse desafogo, ( e segundo um anónimo viveu acima das suas possibilidades) Portugal e os portugueses não devem pagar os resultados dos comportamentos desses.

    Nem os desmandos, esses sim criminosos, dos banqueiros e dos seus comparsas de negócios e de políticas. Estes devem ser chamados à responsabilidade.

    Pelo que há que exigir o julgamento de quem fez pagsr a todos a austeridade que tinha responsáveis.

    São imperativos morais que Passos e e Portas devem ser julgados. Mais o Cavaco. E todos os responsáveis pelos PPP, swaps, falências bancarias, roubos, corrupção e exploração.

    Esses é que viveram acima e muito das suas possibilidades. E roubaram-nos a todos.

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  6. "Um quarto das famílias com crianças tem dificuldades no acesso a alimentos"

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  7. «Pensar no nosso futuro e preparar o dos nossos filhos e netos é uma responsabilidade a que não podemos fugir. Entristece-me pensar que pertenço a uma classe média que viveu razoavelmente bem aproveitando o tempo do enorme endividamento da economia portuguesa e, quando chegou a hora de assumir as consequências, preferiu meter a cabeça debaixo da areia. Preferiu a cobardia dizendo que tinha medo da alternativa. Imaginem se os Capitães de Abril também tinham pensado assim?»

    "Preferiu a cobardia dizendo que tinha medo da alternativa" - se bem entendo a alternativa seria mais austeridade e durante mais tempo até que se aprendesse a viver de acordo com o que se produz. Plenamente de acordo! Os portugueses não são muito de sacrifícios e de fazer o que tem de ser feito. Não têm tomates, digamos assim. Preferem , o logo se vê , um dia atrás do outro e a fé em Nossa senhora de Fátima ao trabalho árduo e organizado. Uns cobardes , sim e uns medrosos merdosos.

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  8. Mais um a tresler em vez de ler.

    Ó sr Pessoa. Em vez dessa escrita cheia de "tomates"e de "cobardes" e de "medrosos" e de "merdosos" e de "puta de vida" e mais toda a linguagem escatológica que admira e gosta, porque não perceber que a alternativa que nos impinge não é a alternativa apontada pelo autor do texto?

    Isto é mesmo ignorância das posições que Jorge Bateira defende ou é "outra coisa"

    Os portugueses de facto não tiveram tomates para correr com esta máfia de vendilhões da Pátria, que, escudados atrás dum processo austeritário, fizeram regredir o país não sei quantos anos.

    E de colocar em causa de forma frontal quem está na génese de toda esta situação. É necessário lutar pela nossa independência, como povo senhor do seu destino.

    Sr Pessoa sabe? Se voltar a ler talvez perceba, em vez de fazer estas figuras tristes de virgem ofendida em busca de tomates alheios. Porque no texto está lá quase tudo . E até mesmo o sr Pessoa vai perceber isso

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  9. Desculpe-me o sr. anónimo , ofendido com a minha linguagem escatológica (onde não há contudo qq "puta de vida" - essa é sua! ) mas sendo as minhas limitações muitas não percebi realmente qual a alternativa apontada pelo autor do texto. "Mea culpa"!
    No entanto , desconfio que "a alternativa" existirá apenas na cabeça dos anónimos iluminados ( mas sempre merdosos medrosos , no seu anonimato) e na dos privilegiados intelectuais que proliferam por todo o hemisfério esquerdo da humanidade , e aí se confinará , na impossibilidade da sua transposição para a realidade.

    Mas vamos andando e vendo , tentando aprender

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  10. Talvez se explicassem devagarinho ao sr. Pessoa que se os camaradas dirigentes mandassem, todos tinham direito a ser a classe média que de que o sr. Pessoa se viu provavelmente afastado, tudo sem dívidas e talvez não na paz do Senhor, mas também não se pode ter tudo.
    Agora num ponto o Pessoa tem razão; em algum momento alguém perdeu os tomates!

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  11. Vamos a ver se o sr pessoa entende porque me custa este tipo de puxão de orelhas a alguém com essa idade.

    A linguagem usada é da exclusiva responsabilidade do sr pessoa, na sua
    escrita cheia de "tomates"e de "cobardes" e de "medrosos" e de "merdosos" e de "puta de vida".

    O "puta de vida" foi encontrado numa coisa publicada pelo sr pessoa a 1 de Janeiro de 2017. Já lá vamos ao seu conteúdo , mas a linguagem mostra uma continuidade admirável.

    Pelo que lastimo sr pessoa mas a linguagem é mesmo sua. Repito, a tal "puta da vida" é mesmo sua.

    Aprenda a ter a dignidade de assumir o que anda a dizer.

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  12. Posto este ponto prévio, vamos ao sumo da questão.

    Não se pode fazer nada se o sr pessoa não consegue ver a alternativa indicada pelo autor do texto.

    É mesmo uma limitação sua. Que ainda ande à procura do que o autor do texto quer dizer ou que ainda à procure da forma de impingir a alternativa que o sr pessoa nos quer impingir é, neste contexto, uma questão puramente académica.

    Ainda não chega lá.

    Como promete todavia ir andando e vendo, tentando aprender , tenhamos esperança

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  13. Este é o sumo da questão..

    Infelizmente o sr pessoa parte depois no seu linguarejar um pouco suspeito para o insulto directo.

    O sr pessoa não gostou que lhe tivessem respondido à letra à manifesta ignorância que há pouco acabou, pelas suas próprias palavras, de confirmar.

    E vai de volta sai-se como uma sobre "anónimos iluminados", o que como se sabe é um argumento de monta.

    O pior contudo está para vir. Fazendo jus à sua linguagem, o sr pessoa acusa quem aparece como "anónimos" de ser "sempre merdosos medrosos".

    Acontece que ainda não é o sr pessoa a fazer as regras do que se faz por aí. E por aqui. Aceitam-se comentários anónimos. Não pode o sr pessoa aparecer por aí ( e por aqui) com estes tiques de ditador de polichinelo, impondo aquilo que acha que deve ou não ser. Isto ainda é um espaço plural e civilizado. Os motivos pelos quais as pessoas procedem como procedem são múltiplos e vários. E acontece que este blog é assim que tem funcionado. E são estas as regras que eu me submeto e que o sr pessoa, pese o seu incómodo, tem que aceitar

    Pelo que não tem autoridade nem se admitem estes seus comentários boçais "merdosos medrosos". Se a mamã ou o papá não conseguiram dar-lhe a educação apropriada isso é um seu problema familiar. Mas não extravase para aqui nem este seu nível, nem esses tiques de censor de lápis azul serôdio.

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  14. Posto mais este esclarecimento necessário ao "merdoso medroso" em uso pelo sr pessoa, voltemos à questão central do post sempre corajoso, sempre frontal de Jorge Bateira.

    E ao argumentário usado pelo sr pessoa para o rebater. E o que vemos?

    Infelizmente a seguir aos "merdosos medrosos" do sr pessoa não há nada de relevo. Absolutamente nada. Nem um esboço de contraditório, nem uma sombra de qualquer ideia válida. O que há são profissões de fé, ideologicamente orientadas, tacanhamente debitadas, que atestam a vacuidade argumentativa do sr pessoa.

    Senão vejamos o que diz o sr pessoa?
    "os privilegiados intelectuais que proliferam por todo o hemisfério esquerdo da humanidade , e aí se confinará , na impossibilidade da sua transposição para a realidade".

    Uma espécie de cassete de mau gosto que mantém aquele odiozito aos "privilegiados intelectuis" ( já lá vamos) e aos que povoam o hemisfério esquerdo da humanidade.

    Tudo dito.

    Que pena nem todos pertencermos ao hemisfério tido como certo pelo sr pessoa.

    Que pena os "privilegiados intelectuais" serem apenas os classificados como tal pelo sr pessoa. Ele, logo ele , que até publica uns escritos sobre a "puta da vida" e uns comentários avulsos sobre a tomada de posse de Trump, demonstrando a sua faceta de homem ausente de qualquer espírito intelectual.

    Mais um a juntar à colecção de peralvilhos que se assumem como não intelectuais, sendo precisamente o que são.

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  15. Resta uma última afirmação do sr pessoa.

    Ao que parece a alternativa à austeridade (e à mais austeridade uberalles) do sr pessoa não existe.

    Parece que fica confinada à cabeça de. Pela "impossibilidade da sua transposição para a realidade".

    Vejam bem se isso não é o discurso podre e apodrecido da TINA. Uma afirmação categórica em estilo de reza ou de mantra. Que a realidade tem acabado por desmontar.

    Andámos a ouvir esta treta durante anos a fio. Passos e Portas, Cavaco e Cristas , a comunicação social fidelizada, mais os banqueiros e os grandes senhores do poder económico. A troika e os mais além da troika.

    Em todo o seu esplendor, a subserviência canina dos vende-pátrias vulgares.

    E agora aparece o sr pessoa a debitar o mesmo, a mesma historieta de pesadelo, como se fosse uma verdade do além? Só que agora escrita por um não iluminado assumido, intelectual envergonhado, cujo espírito está preso a slogans manhosos em estilo axiomático e cuja escrita está amarrada a "tomates"e a "cobardes" e a "medrosos" e a "merdosos" e a "puta de vida" e mais toda a linguagem escatológica que admira e gosta?

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  16. ( Manda a verdade e a limpidez de processos chamar a atenção para o video colocado por Jorge Bateira em que "Steve Keen explica o básico e arrasa a teórica económica dos Tratados".

    A sua visão atenta poderia ser particularmente útil para alguns irem andando e vendo e tentando aprender.

    Poderia ser que se evitassem alguns "mea culpa" a cheirar tanto a hipocrisia como a água benta)

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  17. Parece que há algo que liga Pessoa e Jose.
    São os "tomates"
    Que os encontrem será pedir muito?

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