quarta-feira, 21 de junho de 2017

A (falta de) consciência de classe no outro lado do espectro

Grande parte das pessoas com quem me dou no dia-a-dia diz-se da classe média. Muitas estão convencidas de que o bem-estar com que vivem deriva fundamentalmente do seu mérito. Poucas têm consciência de que os seus rendimentos as colocam entre os 20%, 10% ou mesmo 5% das famílias mais ricas do país (é mais provável do que parece, façam as contas). E ainda menos estão dispostas a reconhecer que muitas das oportunidades que tiveram na vida se devem ao seu contexto familiar e social de origem (e também à sorte). Isto ajuda a explicar o modo como se insurgem contra os impostos que pagam ou contra o facto de não poderem deduzir no IRS todas as despesas que fazem com serviços de educação ou saúde. Um pouco mais de consciência de classe (não exactamente a de que Marx falava) não lhes faria nada mal - nem a elas nem à redução das desigualdades neste país.

Este excelente texto ("Parem de fingir que não são ricos") é sobre a Inglaterra e os EUA, mas com as devidas adaptações aplica-se bem a Portugal. O mesmo se verifica com este ("Como a classe média-alta enriqueceu e prejudicou a mobilidade social"), sobre os EUA.

19 comentários:

  1. A unica e verdeira consciencia de classe que temos é de a NÓS e os OUTROS daí que o tal "espectro" viva bem com o seu umbigo no mar de lamentos que os OUTROS lhe tentam infligir, seja por via de impostos ou de demais obrigações de cidadania.

    Marx tentou mostrar algo mais ... mas acho que até o autor do texto ainda não atingiu.

    ResponderEliminar
  2. Em desenho: http://thewireless.co.nz/articles/the-pencilsword-on-a-plate

    ResponderEliminar
  3. A falta de consciência de classe (no outro lado do espectro) revelou-se também ainda recentemente na discussão sobre os colégios privados, nomeadamente na "defesa da escola pública". É muito interessante perceber, por exemplo, que é verdade que as vozes mais influentes na defesa da escola pública têm efectivamente os filhos na escola pública: mas que escola pública?
    Eles sabem que não há 'uma' escola pública, há pelo menos 'duas': a das zonas habitacionais favorecidas (os "liceus famosos" das grandes cidades), onde por força do critério de proximidade geográfica (tal como refere aliás o artigo citado) os alunos são seleccionados e perpetuam a divisão de classe; e a outra, das periferias, dos bairros degradados.
    Assim vivem no melhor dos dois mundos: vivem de consciência tranquila pois os seus filhos, coerentemente, frequentam a escola pública que dizem defender mas, por força de critérios de proximidade geográfica, não se misturam com "os outros" e usufruem de "boas escolas".

    Resumindo. Um pouco mais de consciência de classe não faria nada mal a alguns grandes defensores da "escola pública".

    ResponderEliminar
  4. Caro Ricardo, permita-me duas observações:
    Parece-me que estas (e outras) contas dos salários são feitas com base nos valores declarados para IRS e segurança social, e não nos valores reais: logo, os ricos apurados nestas contas não correspondem aos realmente mais ricos.
    ....
    Quanto a impostos lembro que num unico ano (2013) a receita de IRS cresceu 30% e quem carregou com este colossal crescimento foram os 20% mais ricos nas declarações (de IRS), ao passo que os verdadeiros ricos na generalidade fazem parte dos tais que declaram rendimentos bastante inferiores aos reais.

    ResponderEliminar
  5. A formação de classes é tão inevitável quanto a pulsão para a diferenciação individual.
    Quem entendeu que pôr-lhe fim é um objectivo viável ou sequer desejável montou um cenário para toda uma cretinice que mais não faz que inverter o sentido que historicamente se identifica com o progresso.
    Que há lutas e perversões tão só significa que há vida.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há qualquer coisa de delicioso na forma como um empedernido inimigo de tudo o que sejam ciências sociais fala em "pulsão".

      E de como associa a "pulsão" à formação de classes.

      Esta deste sujeito ter tido a pulsão imperiosa de defender o seu status quo e os seus privilégios de classe é tao espantosamente reveladora que só mesmo uma sonora gargalhada a pontuar esta pressa e esta missa.

      Eliminar
    2. Claro que as classes possidentes querem continuar a deter o poder e a concentrar a riqueza. Cada vez mais.

      Agora falam em "pulsões". Antes falavam do direito de propriedade dos senhores sobre os escravos. Ou do direito do colonialista sobre os outros povos.

      Também aí era o progresso que era invocado, montado sobre a enorme e verdadeira pilha de crimes inenarraveis que eram cometidos. Precisamente pelos detentores do poder e senhores do mundo.

      Eliminar
    3. Mas há mais duas notas verdadeiramente picarescas a registar.

      Quem não se lembra do ar irritado, afobado, agastado, inquieto, furibundo, deste sujeito da pulsão quando confrontado com o tema ou mesmo com a simples nomeação da " Luta".

      Agora invoca-a como fonte de vida.

      Está mesmo de rastos o pano de fundo argumentativo para não conseguir apresentar um mínimo de coerência interna

      Eliminar
    4. Quanto à invocação das "perversões"...

      Que pulsões ocultas ( ou não ocultas) terão motivado tal lembrança?

      Eliminar
  6. Interessantes comentários que me apetece opinar sobre todos eles de modo destrinço claro está:

    Anonimo (21 de junho de 2017 às 22:30)

    Nada tenho contra os colegios privados ... desde que se mantenham PRIVADOS e não se serviam do Estado assim como nada tenho contra aqueles que na oferta PUBLICA procurem os melhores estabelecimentos de ensino para os seus. Agora, ao ler ressabiamentos de chicos espertos que se serviam do dinheiro dos "periféricos" para que os seus pudessem perpetuar o chico espertismo dos pais com um maior aumento do fosso social a medio-longo prazo cria-me um certo engulho a sem vergonha postura de tais que ainda se queixam de um direito constitucional e universal; a maxima de educação para todos não precisa de defensores é um direito.
    Querem colegios que os paguem do seu bolso e que de uma vez por todas percebam que HUMILDADE não é aquela coisa que cresce nas paredes.

    Unabomber (21 de junho de 2017 às 22:45)
    Quanto um Amorim declara o ordenado mínimo para efeitos de IRS creio que está tudo dito em relação ao que escreveu.

    Jose (22 de junho de 2017 às 09:52)
    O Jose, pelo que tenho lido, carece de uma visão menos formatada do organigrama social caindo com frequencia no radicalismo.
    A questão da luta de classes já não é a ferro e fogo como no sec.XIX, evoluímos um pouco desde então, então veja lá, até já temos "smartphones" que nos põem a maquina da roupa lavar antes de chegarmos a casa - E esta hein?
    A questão não é de haver ricos ... que os haja e em abundância, meu caro, a questão é que na sua "alegoria da caverna" mui sui generis não consegue conceber que os pobres sejam menos pobres. Eu creio é que o Jose ao crer que por cada um rico tenha NECESSARIAMENTE haver 500 muito pobres, e pensar o contrario é uma cretinice, demonstra a todos que o lêem que ainda existe um longo caminho a percorrer para atingirmos o tal progresso social pelo o qual as esquerdas se uniram. Contudo, obrigado pelo seu contributo pois, as vezes, é fácil esquecermos que os Joses existem.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não percebeu o meu comentário. Subscrevo tudo o que disse sobre escolas privadas.
      Passemos agora às públicas. Tal como no artigo indicado pelo RPM, também em Portugal se perpetuam classes na Escola Pública, por via (entre outros) dos critérios de entrada.Há efetivamente Escolas Públicas para as elites (situadas em zonas residenciais privilegiadas ) e Escolas Públicas para os outros. Os maiores defensores da Escola Pública têm os filhos na das elites e não têm sequer consciência de que fazem parte de uma classe à parte.

      Eliminar
  7. Comentario: 23 de junho de 2017 às 09:11

    Não percebi mesmo, aliás acredito que nem o próprio percebeu o que escreveu pois se assim fosse não misturava alhos com bugalhos.
    Começa com um "alegado" lamento utilizando os colégios privados que, esses sim, cultivavam o elitismo educacional à custa do erário publico que, por seu lado, ironicamente (ou não) via-se e desejava-se para oferecer condições muitas vezes abaixo do mínimo para partilhar saber por falta de verbas. É bom não esquecer que anos a fio o ministerio da Educação foi dos que mais sorveu do orçamento de Estado e, mais uma vez, ironicamente, eu andei numa escola que foi provisória durante 27 anos nuns prefabricados e, no presente, continua a ser possível vislumbrar essa cultura do "provisório". Para onde foi a maior fatia desse dinheiro canalizado para a educação? Quem eram os administradores desses colégios? Quem é que lhes atribuía o estatuto de utilidade publica e consequentes contratos com o Estado?

    Isso é que o devia indignar! Essa máxima dos uns mais iguais que outros ... mas não, a sua real preocupação é a dos paizinhos "esquerdistas" que, sabendo que a oferta publica difere (a meu ver mal), procuram a escola publica, que no seu entender, apresenta um pessoal docente mais competente faz com que esses paizinhos são é uns hipócritas que subrepticiamente são elitistas e defensores de uma classe aparte.

    Estranha forma de indignação a sua!

    ResponderEliminar
  8. ARA revolução

    Deixe-me esclarecê-lo que estou plenamente ciente de que a pulsão esquerdalha está centrada nos euros.
    E se a questão se põe claramente nesses termos, estamos em terreno de negociação e consequentemente de equilíbrios possíveis.

    Mas esclareça-me se souber:
    Porque anda tanto palhaço a invocar filosofias do séc. XIX , indiferentes a todo um desarrazoado quando tão só se pretende uma maior fatia do bolo?
    A suspeita é que querem trocar treta por dinheiro; ora isso não é negócio que se proponha...

    ResponderEliminar
  9. O Cuco é um gajo feliz!
    Monta um cenário de debate, escreve uma fala para o adversário, encena-o em estado de afobação (pelo mínimo) e vem para a plateia aplaudir uma sua réplica que não chegou a formular.
    A felicidade é preciso saber criá-la!

    ResponderEliminar
  10. Mais pulsões a tentar substituir ideias e debates.
    Quando se chega a isto, pode-se invocar a mediocridade. Mas mais alguma coisa.

    Quanto à designação de "palhaços" a quem invoca filosofias do séc. XIX ...percebe-se que isto não é nem pulsão nem mediocridade.

    É odiozito puro e duro. E uma concreta preferência pelas ideologias de Salazar e de Pétain?

    ResponderEliminar
  11. Como se sabe o tema do post é a "consciência de classe". "Os ricos que fingem que o não são".

    Não são os cucos que atormentam a alma de um que tenta, segundo ele, criar um cenário de felicidade

    Mas manda a limpidez dos factos que se percebe que a denúncia da pulsão imperiosa do "gajo" por defender o seu status quo e os seus privilégios de classe o deixe sem nenhuma vontade de rir.

    A realidade é tramada. E o seu confronto leva o "gajo" a isto?

    ResponderEliminar
  12. Mas percebe-se que o que perturba mais o "gajo" é provavelmente a denuncia que as classes possidentes querem continuar a deter o poder e a concentrar a riqueza.

    Escondidas agora debaixo duma linguagem "pulsional". E duma linguagem usando continuamente a palavra "cretinice" com que insulta sistematicamente quem não lhe segue a ideologia

    É que antes, "gajos" como este, falavam do direito de propriedade dos senhores sobre os escravos. Ou do direito do colonialista sobre os outros povos.E do "progresso assim invocado".

    Ora percebe-se assim que a réplica não agrade ao "gajo" E prefira negá-la.

    Como prefere negar,silenciando de todo, a sua aberração por reagir sempre pavlovianamente à simples palavra "Luta". E agora aparecer a convocá-la como fonte de vida.

    E calar-se sobre o mistério da lembrança das "perversões" metidas assim a martelo (e tão freudianamente), no que se debate

    ResponderEliminar
  13. Pois é.

    Herr jose diz aí mais em cima que ".... montou um cenário para toda uma cretinice "
    Para depois mais abaixo afirmar "Monta um cenário de debate"

    A questão não está no limitado vocabulário, feito de montagens e de cenários.

    Mas no conteúdo. Quem assim fala em "cretinice" como argumento ( e como insulto)vem lamuriar-se feito vestal por uma "réplica"?

    A réplica devida deveria ser do mesmo quilate argumentativo ou civilizado?

    A pesporrência tem destas coisas. Não se olha ao espelho e depois lastima-se por ser continuamente apanhado com as calças na mão

    ResponderEliminar
  14. Jose

    Pulsão! Pulsões! Sim sr.! Descobriu uma palavra nova,foi? Sim, porque "esquerdalha" e "palhaço" abundam no seu vocabulario "comentadeiro" mas ao afirmar uma patacuada em forma de questão quis deixar no ar um sublime toque de ironia, sinal de inteligência, mas, mesmo assim falhou em toda a escala pois nem em História se safa.

    Falou com pose e posse da tal teoria do sec. XIX que teima em amedrontá-lo olvidando que esta nasceu em contra-ciclo de uma economia mundial com origem no Mercantilismo do sec.XVI e mesmo quando sec.XIX que foi tão profícuo em demonstrar ao mundo alternativas viáveis para a economia lá veio um sr. chamado John Maynard Keynes afirmar as semelhanças da sua teoria sobre o processo económico com a da própria teoria mercantilista.

    Mas como no velhinho mercantilismo as colónias e as metrópoles eram pedra basilar da economia de então, com a chegada do capitalismo selvagem, "democratizaram-se" os mercados e os "Joses" de então tornaram-se "liberais" capitalistas pois viram que com a queda da proibição das manufacturas nas ex-colónias, já não contado com a escravatura, o valor do trabalho era bastante menor que o das ex-metrópoles que em consequência concorrencial trouxe um cenário na na Era Industrial de exploração proto-esclavagista do proletariado tornaram o mundo que Marx quis combater ... bom, embora por cá seculos antes tivéssemos tido o Marques de Pombal, houve um retrocesso evolucionista em Portugal que viveu 48 anos à sombra das colónias e da metrópole isto porque os Joses que assinavam "a bem da nação" se sentiam confortáveis no seu mui sui generis "orgulhosamente sós" a contar os seus tostões de arrendatários de uma qualquer Cabinda Gulf Oil Company e etc e tal.

    Ou seja, se o Jose quiser desabafar que o faça em frente ao espelho onde de certeza terá sempre razão mas se quiser discutir pontos de vista tente ser mais informado e não se por a jeito.
    Quer discordar? Vamos debater?

    ResponderEliminar