quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os números só confundem


Li um editorial no Público que me deixou um pouco irritado. Não pela opinião que é livre, mas pela certeza por detrás dessa opinião.

A mensagem é que as boas notícias são para ser ditas e discutidas independentemente de serem más para a agenda de curto prazo da oposição. Ora, o problema não está tanto no facto de a agenda de curto prazo não poder mostrar ou aceitar as boas notícias. O problema é mais a incerteza que reina neste mercado de trabalho completamente desestabilizado e fragilizado que, ao fim de quatro anos de ajustamento, a troika e esta Maioria nos deixaram.

Já nem falo do facto de as boas notícias se referirem apenas ao desemprego "oficial" - aquele que segue as regras estritas do Eurostat - e não ter nem uma palavra a dizer sobre a evolução do desemprego em sentido lato - que abrange todos aqueles que os critérios estritos do Eurostat não consideram, mas cuja evolução contraria a do desemprego oficial.

Falo, por exemplo, dos próprios fluxos de desemprego. Olhe-se para a inscrição de novos desempregados nos centros de emprego desde 2012 (gráfico em cima). Ou seja, os números que não sofrem qualquer mexida por parte dos serviços administrativos.

Consegue perceber-se alguma tendência consistente de redução do desemprego?
Agora, olhe-se para a evolução desses números (em média móvel de 3 meses) e compare-se com a variação homóloga do valor oficial do desemprego registado nos centros de emprego - depois de todas as alterações administrativas, inscrições em estágios e em acções de formação profissional, suspensões, anulações, etc., etc..

Consegue ter alguma certeza sobre as boas notícias no mercado de trabalho?


Até parece que houve alguma limpeza de ficheiros no início de 2014 que quebrou a tendência de alta dos novos desempregados, que depois retomou o seu curso normal de subida...

Pois é, a coisa não está para haver boas notícias, sobretudo quando afecta 1,5 milhões de pessoas. Quem sabe?, um dia chegará a sua vez...

5 comentários:

  1. É assim.
    Os chamados orgãos de comunicação de referência (Público e outros parecidos)lá que sabem fazer propaganda isso sabem.

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  2. A verdade é que todos os meses há limpezas dos ficheiros...
    Falo por experiência própria de quem já foi riscada e reinscrita uma série de vezes. Basta não responder a uma carta a oferecer a inscrição na tropa ou quejandos...

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  3. Reproduzo o escrevi na caixa de comentários do público.
    Vergonhoso.
    "Até parece um editorial ao serviço da universalidade e interesses do capital, na construção de um outro mundo que não se identifique com a realidade social, que empobrece o debate e o pensamento alternativo. O editorialista do Público vê verdade nas "boas noticias". Sim, retire-lhe os estágios que estão a desestabilizar muitos postos de trabalho forçando a substituição e qualidade da relação por trabalho mal pago; quantifique os desempregados eliminados; os desencorajados e diga-se, o que é de destacar, senão o "consolo" da fantasmagórica taxa de 13%. À manipulação pelo poder económico e politico, feitas com uma intencionalidade, aliam-se os da comunicação social: calam quem destoa; protegem quem gera a "desordem" e se recusa polemizar a dura necessidade das escolhas a fazer."

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  4. Mais um gráfico para masturbação intelectual aqui dos ladrões de bicicletas. É fodido um gajo não ter nada para fazer.

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  5. Não quero por em causa o que o autor diz e afirma; como, aliás, poderia fazê-lo?
    Sei por experiênciasde de que tenho conhecimento directo (familiares e amigos chegados)o que é ser forçado a emigrar depois de ter passado trabalhos mal (direi antes pessimamente) remunerados, sem qualquer protecção ou mesmo sem qualquer vínculo com a empresa e por longos períodos de desemprego.
    No entanto, ao que me parece, as recentemente divulgadas estatísticas do EUROSTAT não se referem ao desemprego mas à criação de empregos e, pelos vistos, parece que a criação de empregos evoluiu um pouco melhor que noutra paragens.
    Se tiver percebido bem, os comentários do João Ramos Almeida foram um pouco lado: julgo que pode haver desemprego (mesmo no sentido restrito das estatísticas oficiais) elevado, quiçá a crescer, e haver criação liquída de postos de trabalho. Falta seber de que tipo de empego estarão a falar...
    Se tiver oportunidade de esclarecer fico agradecido.

    José Oliveira

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