sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um país à deriva

No final de 2012, a taxa de desemprego atinge os 16,9%. O ritmo de destruição de emprego empreendido pelo actual governo é absolutamente vertiginoso: em apenas ano e meio contabiliza um aumento de desempregados (233 mil) que compara com o verificado entre o início da crise financeira (2007/08) e Junho de 2011 (239 mil, em quatro anos e meio). Ao mesmo tempo, o número de desempregados sem acesso a subsídio de desemprego aumenta cerca de 120 mil desde a tomada de posse da maioria PSD/PP, atingindo os 524 mil no final do ano passado. E o número de beneficiários de RSI está em queda desde Março de 2010: menos 124 mil (redução de 30%), a que acresce uma degradação crescente dos valores das prestações (244€ em média, por família, em Fevereiro de 2010, para 215€ em Dezembro de 2012). Tudo isto enquanto a tripla tenaz da austeridade (aumento do custo de vida, cortes salariais e degradação dos serviços públicos e das prestações sociais) foi sendo violentamente aprofundada. Bem-vindos à «ética social na austeridade».


O governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas está assim a colocar um número crescente de famílias e cidadãos no vazio, no limbo do total abandono. Mas não se pense que este é apenas o dano colateral do fracassado processo de ajustamento orçamental. Este é o mundo sinistro que Gaspar e Santos Pereira conceberam desde o início para «sair da crise»: quanto maior o desamparo, quanto mais desregulamentada a legislação laboral, quanto mais espicaçado o simples instinto de sobrevivência, tanto melhores as condições para competir através de baixos salários e assim reverter a balança comercial. O consumo interno, a economia doméstica, valem tanto como as pessoas que a constituem: nada. E é por isso imperioso continuar, com a mais distinta lata, a recitar o mantra do «risco moral associado a algumas prestações sociais», como referia recentemente o ministro Mota Soares, ao sugerir que é preciso «contrariar situações em que, (...) apesar de os beneficiários (...) terem capacidade e idade para o trabalho, possa ser preferível não o estarem a fazer por estarem a receber prestações sociais». Como se existisse um mar de empregos e oportunidades desaproveitados pela malandragem, numa economia que está hoje em estilhaços.

Tudo isto era mais que previsível e não faltou quem avisasse. A aposta exclusiva - e a qualquer preço social - nas exportações, mais do que perigosa, era um acidente à espera de acontecer. E por isso, só mesmo com a mais requintada desfaçatez pode o ministro Santos Pereira vir agora dizer que a culpa da quebra do PIB e do desemprego, superiores ao esperado, são uma surpresa e responsabilidade do desempenho da economia europeia, mergulhada na mesma receita em que a maioria tanto se tem empenhado (para lá do memorando). Como na anedota do agricultor que, apostado a ensinar um burro a passar fome, exclama a sua surpresa no dia em que o encontra morto: «que azar, logo agora que estava quase habituado a viver sem comer».

3 comentários:

  1. Parece-me um erro continuarmos a racionalizar a interpretação dos que insistem em condenar os cidadãos à miséria e à morte. Logo que a democracia seja uma realidade neste país muitos dos crimes que não são tidos como tal serão trazidos à luz do dia, só aí compreendo a pertinência das concepções de determinados indivíduos até lá tudo o que me importa é a selvajaria e a ignorância.

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  2. Morre em cada dia a esperança de dias melhores . Morre a vida que amávamos e que arduamente conquistámos.

    Custa ver a cegueira dos nossos governantes e a sua insensibilidade e injustiças praticadas.

    Ainda menos lhe custam tantos erros praticados dado que ficam impunes.
    É tempo de acabar com a impunidade política e obrigá-los a pagar civil e criminalmente pelos erros praticados. Talvez assim eles nos respeitem e não destruam mais o pais e os portugueses.

    REUNDEMOS estas políticas na Constituição portuguesa e europeia.

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  3. Prometeram-nos a prosperidade europeia da década de 60, mas afinal o que nos estão a dar é a miséria do 4º mundo.

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