quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A face visível das convergências



Já aqui defendi que a esquerda socialista tem de conseguir traçar linhas contra a corrupção, ou seja, contra tirania do dinheiro que ultrapassa a sua esfera própria. Isto tem de ser feito de forma directa, através de projectos de lei – levantamento do sigilo bancário, crime de enriquecimento ilícito, fim da protecção às luvas e retenção fiscal das mais valias urbanísticas –, e de forma indirecta, através do combate à desigualdade económica: a arrogância do dinheiro e a sua capacidade de corroer a legitimidade das instituições democráticas são directamente proporcionais ao grau de iniquidade na sua repartição. Fiz a seguir uma pergunta: a direcção do PS prefere estes combates ou prefere convergências com a pouco recomendável extrema-direita parlamentar? O PS responde hoje. A propaganda sistemática dos últimos tempos em alguns media, a propósito de temas económicos, tem uma racionalidade: placar a esquerda.

Entretanto, o FMI vem ajudar à festa ideológica: os mais pobres que paguem a crise. As recomendações do costume: aumento do regressivo IVA (que já tem um dos maiores pesos relativos nos impostos a nível da UE), cortes nas despesas sociais e revisão dos acordos tendentes a aumentar o poder de compra do salário mínimo. O FMI vai propor isto para todos os países da UE porque, já sabe, “o mundo é todo igual e aliás tem só uma pessoa que maximiza intertemporalmente” (Braga de Macedo com fina ironia). Imaginemos que todos seguem esta recomendação e temos uma falácia da composição à escala da UE com óbvios efeitos depressivos: o que parece "racional" para cada país individualmente considerado – promover as suas exportações por via da compressão dos custos relativos do trabalho e conter o consumo interno – gera um resultado global irracional sob a forma de um mercado interno europeu desequilibrado e contraído por um défice permanente de procura.

Na UE, grande parte dos problemas estão na maior economia europeia, a Alemanha, que não está disposta a suportar a procura europeia através da correcção dos seus insustentáveis superávites. Com o euro a valorizar-se, isto não vai ser bonito. O Tratado de Lisboa só cristaliza uma arquitectura económica desadequada e que mina a economia europeia.

4 comentários:

  1. Tudo isto é triste, tudo isto é fado.! Eu já nem sei o que dizer; isto caminha alegremente para a catástrofe. Após a Cimeira do "Conhecimento e Inovação", vêm os relátorios "dos défices e do aumento dos impostos"(!)!

    Tomar a realidade pelos nossos desejos e vice-versa é um crime grave que, embora ninguém obviamente mereça cumprir pena por tal. Por isso vamos todos cumprir (!)!

    O discurso maniqueísta de economista bom - economista mau que este blog gosta de fazer só falhar por se esquecer de sublinhar que são todos ECONOMISTAS MAUS:!

    Já agora, superávites não são insustentáveis, os défices é que o são!! (?) (Só falta dizer para o comité do Partico Comunista Chinês que acabe com o seu 'insustentável' superávit! ou há guerra (!) luta política da mais dura (!))

    Para estupefacção minha, os autores daqui falam em "correcção", mas não dizem como é que essa correcção se faz!!! Pelo que dizem podemos intuir que estão ao nível de um Friedman ou Lucas, para os quais 'a correcção' era inevitável (só que guiada pelos mecanismos de mercado). Óbvio que estão os dois lados errados, mas os segredos do desenvolvimento desigual ficam para outra lição...

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  2. Grande abraço ao Ricardo que ontem desmascarou o sr.Macedo obrigando-o a meter a viola no saco.

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  3. João,

    O projecto da cativação das mais-valias urbanísticas têm um problema no conceito de mais-valia, que é demasiado maximalista e tem implicações absurdas. Toda a intervenção do Estado gera mais (e menos) valias. O projecto, tal como está, tanto se aplica a mudanças do PDM como a umas obras de pavimentação de estradas. Mais, este projecto trata todas as mais valias como se estas fossem apropriações indevidas, e institucionaliza a expropriação. Se o nosso objectivo é combater a corrupção, o Bloco não pode tratar todas as mais valias por igual.

    Abraço,
    Joao

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  4. A predisposição da maioria dos eleitos em aceitar fazer seguir para a especialidade os referidos projectos-lei é um bom começo. Ficar acantonado nos seus aparelhos – desde que uma iniciativa válida e urgente venha de outros – é que não leva a nada.

    “O FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio…” – cantava o JM Branco. Bem, pelo que ouvi hoje, parece que o governo não pretende seguir as “receitas” prescritas pelo abelhudo FMI. A seguir…
    (Mas porque é que o FMI e acólitos não apareceram quando a casa estava em vias de ser roubada?)

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