sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Sem integração, não há crise de habitação

Não pode deixar de ser revelador que a totalidade dos muitos instantâneos especialistas em tudo com lugar cativo e remunerado na imprensa dita convencional, e que por estes dias perora abundantemente sobre habitação, esteja a ignorar olimpicamente, entre todas, uma das causas mais importantes - senão, mesmo, a fundamental - da crise que impera no setor: a integração monetária e o ordenamento económico neoliberal que a suporta. 


Que a direita enterre o assunto compreende-se bem. Esta Zona Euro é o sonho molhado de um Hayek que via na democracia uma ameaça aos mercados. Naturalizar a exclusão e fazer-nos acreditar que este caos social é o resultado da avaliação que mercados ditos eficientes fazem do esforço dos que não conseguem aceder a um teto é o seu programa.  

No entanto, a meu ver, sem considerar, por exemplo, taxas de juro, criação monetária privada e pública, taxas de câmbio efetivas reais, tetos ideológicos à despesa pública, circulação irrestrita de capital, política de rendimentos, política fiscal, reestruturação rápida, complementar e desigual, do padrão de especialização da economia que resultou da externamente imposta desvalorização interna e falácia da composição nas políticas nacionais e inter nacionais, sem considerar estas variáveis, não é possível explicar com acuidade suficiente a crise da habitação.

Todas estas variáveis são (quase) exclusivamente determinadas pela pertença à Zona Euro. 

A direita libero-facha, apontando aos seus alvos do costume e reprimindo a manifestação do descontentamento, mostra estar determinada a minar qualquer discussão efetiva das origens próximas, e das remotas também, desta faceta habitacional das graves e multidimensionais policrises em que estamos mergulhados. 

E isto enquanto, continuando a dançar uma espécie de tango louva-a-deus com uma fantasiosa ideia de ‘Europa’, a força política maior do extremo-centro-esquerda, aquela que nos presenteia diariamente com o triste simulacro de oposição a que temos assistido, se encontra amarrada ao anúncio público de aprovar sem conhecer todos os cortes que Bruxelas e Frankfurt impõem e que a direita nacional, deles beneficiando, entusiasmadamente executa. Todos os cortes, logo, também o corte na habitação pública. Um desastre democrático. O demérito político de Carneiro não deve fazer-nos esquecer o repetido, mau conselho thatcheriano.

Mas, enfim, lá está. Tanta gritaria, tanto passa culpas e afinal, confirma-se uma e outra vez, o que temos sempre é Dupond e Dupont. 

Quando uns, do alto da sua cátedra na quase privada escola de negócios da praia de Carcavelos, como se de ciência exacta se tratasse, clamam querer no país “mais estrangeiros ricos”, já os outros, anteriormente e a propósito do visto para os chamados nómadas digitais, afirmavam com gáudio que “somos um país muito sexy, apetitoso para estrangeiros”.

E no entanto, há os entreguistas, vivendo na periferia a pretensão da centralidade cosmopolita, e há os outros. 

Por exemplo, e só mesmo a título de exemplo, já em 2018, apresentando legislação que classifica os terrenos residenciais como “sensíveis”, o governo da Nova Zelândia, fez saber que “acredita que os neozelandeses não devem ser ultrapassados por compradores estrangeiros mais ricos” e explicitou que, “[q]uer se trate de uma bela propriedade à beira dos lagos ou do oceano, ou de uma modesta casa suburbana, esta lei assegura que o mercado para as nossas casas seja estabelecido na Nova Zelândia e não no mercado internacional”.

Como se vê, por contraste, julgo que se confirma. Dizia-o em 2022. A subordinação, sobretudo a deslumbrada, não é sexy. E não resolve, antes agrava, os problemas que a ordoliberal integração europeia coloca e/ou exacerba, nomeadamente, o da habitação.  

1 comentário:

  1. O problema atinge Portugal, Espanha, França, Alemanha, sabe-se lá quem mais. Da Alemanha lia que um casal com salário médio não tem possibilidade de com9rar casas.

    Há dois factores que nunca vi mencionados:
    - O semestre europeu;
    - O apetite regulatório da UE. Não é só aqui. Não havia uma reforma bonita com o título da quinta até ao prato que os agricultores combateram com a forquilha?

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