segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Reestruturações há muitas

A reestruturação da dívida pública é um tabu no debate político português: se, à esquerda, esta tem sido defendida face à incapacidade do país em cumprir as obrigações e respeitar as metas europeias, ao centro e à direita a questão é liminarmente rejeitada, ora com base na narrativa moralista de que "a dívida é para ser paga", ora acusando de irrealistas e irresponsáveis os que acham que se pode pedir aos credores para aceitarem perdas no montante que esperam receber. Embora convincente, esta ideia não deixa de ser falsa.

Um artigo de Diogo Cavaleiro e Isabel Vicente no Expresso regista os principais processos de reestruturação de dívida a grandes empresas em 2019. A conclusão dos autores é evidente: "nunca, como agora, se falou tanto de perdões." O artigo refere que os bancos são forçados a medir as consequências da não-reestruturação - isto é, a insolvência desordenada das empresas - e da perda da totalidade do crédito concedido inicialmente, o que explica que aceitem cortes significativos. Os autores sublinham que "não se trata de pequenos perdões, são perdões de milhões para que os bancos possam recuperar entre 20% a 30% das dívidas."

Vale a pena olhar para alguns casos de reestruturação no ano passado. Empresas como a Malo Clinic (clínica dentária), a Varandas de Sousa SA (líder da produção nacional de cogumelos, pertencente ao grupo Sousacamp), a SIVA (de João Pereira Coutinho), o Grupo Sporting ou a Global Media (um gigante da comunicação social, que detém títulos do DN, JN e TSF) tiveram direito a perdões de dívida generosos. Os mecanismos são variados e os motivos também. Nuns casos, os bancos concedem perdões de dívida ou descontos importantes na venda de carteiras de forma a limpar as imparidades do balanço e reduzir o valor do crédito malparado; noutros, optam pela alteração dos prazos de pagamento para tentar garantir que a empresa consegue cumprir. Alguns casos são pouco claros: o perdão à Malo Clinic foi justificado pelos bancos com a necessidade de manter os postos de trabalho, mas a nova gestão da empresa fechou clínicas no país e já reconheceu que "serão necessários ajustamentos". Mas a verdade é que, em todos os casos, a necessidade do setor bancário limpar os balanços ou recuperar parte do dinheiro falou mais alto.

Como se vê, a reestruturação da dívida não é irrealista, mas antes prática comum no setor empresarial. Sem surpresa, os bancos preferem recuperar parte dos empréstimos que concederam do que ficar de mãos a abanar. Daí que só a ideologia e o cinismo político expliquem por que é que os Estados são os únicos a quem esta hipótese é vedada.

11 comentários:

Anónimo disse...

os credores incluem as pequenas poupanças dos certificados de aforro....

Anónimo disse...

"Daí que só a ideologia e o cinismo político expliquem por que é que os Estados são os únicos a quem esta hipótese é vedada."

Independentemente de a ideologia e o cinismo políticos poderem explicar, em parte, porque "os Estados são os únicos a quem esta hipótese é vedada" era importante começar a discussão por reconhecer que as dívidas dos Estados têm natureza e mecanismos de gestão diferentes da dívida comercial das empresas. Caso contrário a discussão não é séria.

Jose disse...

Importa notar que a responsabilidade das empresas é limitada aos seus capitais e nos capitais dos Estado são agregados os dos cidadãos subordinados ao seu poder de extorsão através de impostos e outros meios.
E num Estado que generosamente oferece direitos e garantias aos seus cidadãos, não é de esperar facilidades mas sim uma troika à potência N.

Anónimo disse...

Chama-se a atenção para um blogpost de excepcional importancia.

Aparentemente é sobre o chamado Franco CFA, o arranjinho monetário neocolonial francês.

Na prática, todos os mecanismos e instrumentos monetários, fiscais e políticos de extracção de riqueza da zona do Franco CFA, existem também entre o centro da zona euro e as periferias como Portugal. Daí a importância para a compreensão da situação portuguesa e do que é verdadeiramente importante denunciar.

Claro que este blogpost de Bill Mitchell mereceria tradução e maior destaque no LdB, mas isso ficará ao critério de alguma alminha esclarecida e caridosa que lhe quera dedicar o seu empenho.

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=43904

Paulo Marques disse...

Curioso é que isso só é mesmo verdade na era do neoliberalismo, que coincide com a moeda fiduciária, sendo que antes era banal. Coincidências.

Anónimo disse...

A lógica que preside às restruturações de dívida das empresas é diferente das dos estados. Enquanto que no que toca às empresas o objectivo é maximizar a cobrança de créditos, no caso dos estados, na maior parte das vezes a essa lógica sobrepôem-se objectivos de natureza política e geoestratégica. A concessão de crédito segue idênticos critérios.

Exemplos gritantes disso foram as restrurações da dívida grega, que visaram a transformação do estado grego numa "debt bitch" da UE, mesmo que isso signifique que muitos desses créditos serão incobráveis a longo termo. Por outras palavras, os ojectivos de subjugação política sobrepuseram-se aos objectivos financeiros que minimizassem os prejuízos relativos às dívidas já existentes.

Outro exemplo lapidar foi a concessão por parte do FMI de empréstimos à Ucrânia que à partida não terá qualquer hipótese de os pagar em função do interesse geoestratégico desse país.

Terceiro exemplo foi e está a ser o "culebron" argentino. Exemplo sobretudo de como as políticas preconizadas pelo FMI, apesar de diligentemente aplicadas por um presidente liberal de direita falharam redondamente em resolver os problemas financeiros deste país. Nestes três exemplos são notórias as impressões digitais de Christine Lagarde que por sinal vai passar a ter a sua assinatura nas notas de euro. Será que podemos estar descansados?

A situação de Portugal não é tão extrema como a grega, mas aplica-se a mesma lógica de subjugação das periferias e sua transformação em feudos neocoloniais. É a lógica da carraça: Ir vivendo à custa do hospedeiro, fazendo leis e tratados que o impeçam de se coçar e enfraquecendo-o, mas sem o matar.

Jaime Santos disse...

Chame-lhe cinismo, mas na sua peça deu a resposta à questão colocada. As reestruturações fazem-se no momento em que os credores chegam à conclusão que é preferível aceitar um hair-cut ou um prolongamento de prazos a manter o status quo. E, como o exemplo da Malo demonstra, tais reestruturações não se fazem sem consequências, leia-se austeridade no caso dos Estados.

É mesmo isso que querem aqueles que insistem em falar do perdão da dívida portuguesa?

É que acho que para isso ocorrer a nossa situação económica tem que piorar muito.

E depois, há outra coisa, imagine que o Governo dizia que desejava negociar um perdão. Quanto tempo demoraria para que os juros disparassem?

Paulo Rodrigues disse...

Todos conhecemos as teorias da direita, começando na privatização de tudo o que o estado tem de bom e acabando na nacionalização de tudo os que os privados têm de mau. Que vendam as teorias a quem as quiser comprar...
Mas a questão vai para além da reestruturação.
A adesão a uma moeda estrangeira, sem um mecanismo de equilíbrio fiscal, faz com que os países economicamente fortes acumulem excedentes e os países fracos acumulem deficits, logo dívida.
Reestruturar a dívida e manter o País no euro apenas adia o problema de fundo: uma união monetária tóxica e o caminho mais certo para o desastre, incluindo a paranoia alemã da hiperinflação, que se alastraria, agora, a toda a zona euro, passados 100 anos do primeiro episódio de hiperinflação na Alemanha.

Jose disse...

«Todos conhecemos as teorias da direita…»
Todos conhecemos a ineficiência dos governos das esquerdas, a corrupção que grassa nas suas hostes, a sua tolerância ao compadrio, a sua perene presunção de que a bondade dos seus fins justifica quaisquer meios que os mantenha no poder.

J. C. disse...

Paulo Marques! Quiz dizer moeda fiduciária ou a desregulação da moeda escritural?

Paulo Marques disse...

JC,

Moeda fiduciária, situação que permite perceber claramente que o défice é um número e a emissão de dívida para financiar alguma coisa um subsídio ao capital. Descarado, de resto.